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segunda-feira, 25 de maio de 2015

Globos De Ouro




pulseira e anel indicador #stelladotstyle #stelladot


Foi uma noite bem passada. 
Uma aventura para mim. Um devaneio. Uma loucura.  
Precisava de mais tempo para acabar o meu vestido? Precisava. Ficou um vestido perfeito? Não. 
É isso que é importante? Também não. O meu problema é que gosto de perfeição. Sou exigente. Longe da perfeição e dessa exigência, fiquei feliz com o que me 'obriguei' a aprender com este processo. Para quem não sabe, costurei muito pouca coisa na vida. Tenho aprendido sozinha nos intervalos da vida. Nestes poucos meses fiz um casaco, umas toucas para a Amália, uma saia para mim e umas poucas coisas para ela. Daí a loucura de me meter a fazer um vestido de gala. Imprevistos? Imensos. Claro. Mas sem arriscar também nāo se chega a lado nenhum surpreendente. 
Ao sair de casa brincava porque lá ia em versāo romance, tipo noiva. Ao longo da noite os erros começaram a ficar mais óbvios no vestido. O peso da cauda, os puxões de dois em dois segundos de quem passava, e as minhas trapalhices fizeram com que quase virasse abóbora. Nāo virei… Ou talvez  até tenha virado… Depende do ponto de vista.
O corpete, depois de me sentar algum tempo lá foi ganhando outra forma. Falta de técnica, claro. Ossos do ofício de quem não tem experiência. Ou seja, houve momentos em que até estive bem mas outros em que já parecia um pequeno repolho. 
Ainda assim acho que mereço um "saldo positivo" pela loucura em que me meti. Foi, ainda que com erros, uma graça fazer o meu próprio vestido. Numa próxima vez quero ter em conta mais conforto, rigor e técnica. Quero aperfeiçoar, coisas básicas por exemplo: menos tecido, mais simplicidade,  e ter atençāo para favorecer o corpo. Houve alturas em que fiquei mesmo quase como um papel amachucado. Digo com graça, sem problema. Houve quem simpaticamente gabasse o vestido sem que fizesse sequer ideia que tinha sido feito por mim. Vale pela memória. 
Esta foi mesmo a minha primeira criaçāo, para o bem ou para o mal. Se a seguir vêm mais? Sim, claro. Agora é melhorar. 
Vantagem de me ter atirado para um desafio assim: o que quer que seja de roupa para o dia-a-dia passou a parecer "a piece of cake". Eu disse "passou a parecer"… De parecer a ser ainda é capaz de ir um passo. 
Espero que nāo odeiem. Espero até que gostem. Ficam as fotos. Boas e más. Enjoy e obrigada pelo apoio que recebi nas mensagens:  

Mesmo antes de sair de casa para a XX gala dos Globos de Ouro.


Já na gala com o Pedro <3



Durante a gala


Já bastante destruído, no fim da gala e sem conseguir mexer os pés. Desesperada.

Da gala, na memória fica o discurso tocante e sincero da Sara Carinhas e a maior graça nas palavras do "segundo melhor do mundo". O César Mourāo sempre no seu melhor e a actuaçåo dos D.A.M.A que adoro. O palco este ano ao vivo era lindíssimo.
Para o ano há mais. Talvez fosse melhor começar já a desenhar o próximo… 

sábado, 23 de maio de 2015

Mais Que Apenas O Meu Vestido


Esta é aparentemente apenas a história de um vestido para a gala de amanhā.

Em 20 anos fui quase todos os anos aos globos de ouro. Gala que tantos adoram e outros poucos nem por isso. Eu sou das que gosta. Gosto mesmo, de coraçāo. Podia ser pela comemoraçāo, pelo glamour, por isto ou por aquilo… Gosto porque é das vezes que em Portugal se vê prémios a serem entregues, carreiras a serem exaltadas, profissionais a serem ouvidos pelo seu trabalho, pelo seu talento. As más línguas dizem logo que muitos ficam de fora, que isto que aquilo. Isso acontece inevitavelmente. E entāo? Numa selecçāo há sempre os que ficam de fora. Nem toda a gente está de acordo, sim. É assim. Faz parte. 
Gosto de ver profissionais e colegas premiados pelo seu trabalho. Gosto.  
E se nem sempre concordo com os globos atribuídos… Indiferente. O importante é que se continue a valorizar e a dar ênfase ao que por cá se faz.  
Gostei mesmo quando perdi, mesmo das vezes em que nenhum projecto em que entrei estava nomeado, das vezes em que vi amigos e colegas ganharem, das vezes em que me emocionei com discursos sinceros, das vezes em que me ri com palhaçadas, de brindes que fiz pela noite dentro, de saias rodadas que vi rodar e girar nas danças da madrugada, das histórias que ficaram para sempre, das que ainda vāo ficar, das que ainda estāo por contar, dos prémios e premiados que ainda estāo para vir. Afinal de contas é apenas uma celebraçāo, uma festa. Deixemos de pensar nos indignados que se exaltam por acharem os vestidos superficiais. Os que dizem que os prémios pffff que nem os querem banhados a ouro. Cada um como cada qual. Lembro: é uma festa, uma celebraçāo.  Que mal faz? Que mal pode fazer?    
Os vestidos estāo longe de ser o mais importante da festa mas têm a sua parte. Houve anos em que fui bem, anos em que fui mal, anos em que fui clássica, neutra, outros em que fui teatral, excêntrica, louca ou apenas romântica, consoante o mood, consoante o que me apetecia. Fui sempre eu. E continuarei a ser. No entanto, este ano uma diferença. Um desafio. 
Farta de procurar e nāo encontrar o que queria. Farta de ter de me sujeitar ao que está à venda nas lojas ou ao que é criado por outros… Este ano uma aventura. Decidi fazer o meu próprio vestido. 
Socorro. Fujam para os passeios, escondam-se atrás de portas… cuidado. 
É facto. Faltam 24 horas e estou a acabar o meu vestido. Desenhado, criado e costurado por mim… 
Pois… Hahhahahah. Medo, muito medo. 
Assim será, amanhā. Vestida ou despida consoante o resultado final… 
Lá estarei. Prometo partilhar.  
Eu avisei que isto da costura era para levar a sério. 
Até amanhā. 



quinta-feira, 21 de maio de 2015

Mimi



Olá, Mimi… 
Hoje sou eu que escrevo. A bisa Mimi está longe e segue muito atenta aqui o que a minha māe escreve, acima de tudo sobre o meu crescimento.  
A minha māe nāo tem tido muito tempo para escrever, por isso hoje tomei eu conta da situaçāo. 
A māe anda muito ocupada com várias coisas, entre elas anda a fazer o seu vestido de gala para os globos de ouro deste domingo.  
Ela bem avisou que ia levar isto da costura a sério… 

Já a ouvi várias vezes dizer que tinha mesmo de escrever mais vezes. Por ti, e por todas as pessoas que seguem o blogue.  
Por isso, cá me arranjei a encontrar quem me traduzisse, escrevendo-te e aqui vai.

Querida bisa Mimi,
Como tens estado? Vou sabendo de ti através da avó e do pai. Estamos quase a ir visitar-te outra vez.
Eu ainda nāo ando. 
É… Eu sei… Já era suposto… 
Tenho medo, sabes? É que sinto tudo a abanar e atiro logo o rabo para o chāo. O que faço é dar as māos ao pai e à māe e assim até corro como se nāo houvesse sequer meta… 

Os meus dentes? Os dentes tardaram mas vieram todos de uma vez. Durmo bem na mesma mas fico incomodada de vez em quando. Nāo chateio ninguém porque nāo adianta nada… a dor quando aparece nāo adianta muito chorar. Há um gel fresco que de vez em quando ajuda. Mas sim… Nāo tinha dentes até há pouco tempo e agora tenho a boca cheia de dentes. Sāo muitos, fortes e grandes.

Falar?… hmmmm… Agora passo os dias a dizer papá. Sou menina do papá, mas claro que isso nāo é novidade para ninguém, pois conhecendo o papá todos adivinhavam que este meu amor ia ser maior que o universo. É um super pai. 
Com isso faço uma brincadeira com a māe- cada vez que ela me pede para dizer mamā eu agora respondo: papá… - E desato a rir porque nāo faço o que a mamā pede. Quando ela nāo está a ver é que chamo por ela. ;)
Palavras novas… Vou dizendo: tá, dá, bebé, nhamnham e o resto aponto… O pai e a māe percebem tudo. Já sei onde está a cabeça, a barriga, os olhos, o nariz, o pé, o sapato… 
Estou alta, sou pequenina tu sabes… mas estou mais alta. Continuo magrita mas bem. 

Tenho de ser honesta e de te contar… Nāo me porto tāo bem a comer agora. Nāo gosto muito da comida mais inteira e zango-me. A māe sabe que na escola já me conseguem dar comida para eu mastigar mas em casa faço birras feias… Nāo quero mastigar. Achei que era melhor contar-te porque também faço algumas birras. É só de vez em quando.  Nāo gosto de trocar de roupa, nem que a mamā me limpe a cara e me ponha soro no nariz. Choro muito. Nāo gosto mesmo. Também tenho direito a gostar e nāo gostar, nāo sāo só os adultos. Nāo é?

Envio-te estas fotografias que a mamā às vezes tira. Estas sāo recentes… Ainda nāo viste.

Adeus Mimi… Muitos beijinhos para ti e para todos no teu lar. Estāo aí longe mas perto do nosso coraçāo. Vamos visitar outra vez em breve.
Muitos beijinhos. 
Obrigada por nos lerem

"Amália" 












segunda-feira, 18 de maio de 2015

Esta Violência Em Que Vivemos


Andava pelo Algarve. Eram as férias. Os dias mais aguardados do ano. A minha infância feliz entre o sal do mar, o amor do aconchego nas refeições em família, a felicidade dos dias nas corridas livres sem fim, o brilho da água da piscina cristalina em cada amanhecer, os gelados que derretiam entre as conversas dos adultos na esplanada, os miúdos de joelhos raspados de tanto jogar, brincar e correr. As miúdas perfumadas e de tranças feitas à hora do jantar. As festas à noite, a banda, a música no palco a tocar. A felicidade. Em nós. Na vida. Nas pessoas. O mundo pela frente. A vida num caminho inteiro, longo enorme a percorrer. 
Se há coisa que quero muito é passar isto! É dar aos meus filhos esta certeza de felicidade, de presente e de futuro. Sempre tive. Sempre me foi oferecida a mim, pelos meus, pela minha família. Toda. Inteira. Genuína, verdadeira e feliz. Por isso, a felicidade, a minha infância intocável. 

Um dia… Num curto intervalo nessas férias maravilhosas de amor, de verāo: 
Nāo sei de onde vínhamos mas regressávamos para Portimāo. 
Sei bem quem estava. No carro, o meu pai que conduzia. A minha māe, eu com 7 anos, a minha avó junto de mim e a minha tia.  No trânsito, uma confusāo qualquer. Uma carrinha Ford Transit branca que buzinou. Em fúria, a carrinha ultrapassa-nos em loucura. Fez e aconteceu. Sozinha. 
Na frente do nosso carro de repente parou. Obrigando-nos a nós a travar, a parar. Num ápice junto ao vidro, um homem desconhecido em fúria. Com a vida. Em fúria com a sua própria vida. Eu, muito pequena, em pânico vi o meu pai ser empurrado e ameaçado. Com medo. O meu pai jamais bateu em alguém. Nāo seria ali também. Esse medo nāo existia mas sim o contrário, o de apanhar e ficar ali. Era um homem louco e enraivecido aquele desconhecido. Lembro-me que gritei quando vi a māo do louco sobre o ombro do meu pai. māo que o empurrava. Os restantes loucos da carrinha, num momento de lucidez, arrastaram o seu louco condutor de volta para o seu volante enraivecido. O meu pai intacto e salvo.
Nada mais que isto aconteceu, o suficiente para lembrar. 
Dentro do carro tive medo. Pânico. Senti a tensāo constante pelo modo de agir daquele homem nāo ser o nosso. Nāo era feliz. Nāo, nāo aconteceu nada mais naquele dia ali. Para além desta minha memória. Acreditei que o meu pai nāo saíria mais dali. Tinha apenas 7 anos entre aqueles dias de sol, praia, piscina, bonecas e sonhos. 

Hoje, circula por todo o lado o video do homem que ontem foi vítima de violência num acto de abuso de autoridade flagrante e bastante mais que infeliz… Acto de violência, desonesto, cobarde, feio, perturbador, e muito mais… Um homem que pouco ou mesmo nada fez. Que apanhou perante os filhos, que viu o pai idoso levar dois socos a seco sem como nem porquê. E os miúdos…? 
A polícia perdeu a noçāo. Mexe-me com as entranhas a expressāo de pânico daqueles miúdos. Aquele medo. O terror. 
O que se passa neste lugar?
Que mundo é este em que adolescentes matam outro adolescente, em que miúdos cercam outro para se enaltecerem batendo-lhe num beco sem saída, polícia que espanca pais inocentes e na frente dos filhos… Que mundo é este? Que lugar infeliz é este onde a raiva e a violência andam por todo o lado?

Que infelicidade esta que atravessa gerações, educações, vidas, famílias… Corrói tudo. 
Estas crianças vāo lembrar o acontecimento de ontem a vida toda. Vāo lembrar o medo, o susto, o pânico. Vāo muito provavelmente ter receio da autoridade, em vez de nela confiarem. 
Que lugar queremos ser ao permitir que isto aconteça? 
A violência tem sido rainha. Todos os dias. A violência tem vindo a ganhar a cada dia. 

Que com tudo isto nāo cresça mais a sua banalizaçāo. Pois, por enquanto, no mínimo, resta-nos a indignaçāo perante estas atrocidades. Que no futuro se evite tudo isto e que nāo fique apenas a indignaçāo.  O segredo: está na educaçāo. Uma palavra: Educaçāo.   

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Bullying…



Tinha 14 anos. Era miúda. 
Era miúda e apanhei. 
Hoje vou falar sobre isto, nāo ia mas vou.

Miúda, menina, como as outras. Na maioria das vezes. Na maioria das coisas, era. 
Umas vezes metida para dentro, outras vezes com o rei na barriga. Dependia. Como sempre depende. Nāo fosse assim a adolescência. 
Frequentava um dos melhores colégios. Colégio que olhou por mim sempre, com o cuidado e a qualidade que sempre imprime na educaçāo de quem por lá passa. 
Nāo era uma santa mas era boa miúda. Envergonhada mas provocadora. Era tudo isso, e sem ser demasiadamente nada. Com veia de actriz, gostava de chamar alguma atençāo. Mas nāo fazia mal a uma mosca. Era literalmente uma miúda na sua vida a aprender a crescer. A idade ensinava-me isso: a crescer. Nāo me dava com grandes grupos, era amiga da nostalgia e da introspecçāo. Tinha alguns amigos. Os meus. Nāo os dos outros. Os meus. Simples. 
A Sofia, a Daniela, a Catarina, a Tânia, o Paulo, o André… Enfim… Os meus. Nunca lhes vi nenhum acto de violência. Nunca. 
Eram aí umas 20 horas de um qualquer dia de semana. Em casa, o telefone tocava. Daqueles fixos que tinha de se pôr o dedo para girar número a número. Foi sempre este o telefone. Uma "seca" para uma adolescente que gostaria de falar ao telefone lá dentro no quarto. E aquele ali "pregado" à parede na passagem, no corredor. Em linha, uma voz que eu nem conhecia. Nem sabia quem era. Percebi logo que de amiga tinha pouco. Foi directa ao assunto. Disse que tinha umas contas a ajustar comigo. Nāo percebi quem era nem o que achava que eu lhe tinha feito. Disse-me, ameaçando-me, que me ia encontrar quando eu menos esperasse. A única palavra que eu disse foi "Estou" quando atendi o telefone. Desligou. Desliguei. Achei que só podia ser engano. Nem a conhecia. A este telefonema seguiram-se vários. Muitos. As ameaças eram cada vez mais frequentes, todos os dias, e maiores. Tive medo. O medo começou. Ameaças de morte. Deixei de sair do colégio nos intervalos. Tinha cartāo azul, o que permitia que fosse almoçar aqui e ali. Deixei de ir. Tinha medo. Nāo disse a ninguém. Nem sabia quem falava do outro lado. Escondia que tinha medo. Achando-me pequena por ter medo. Adolescência tonta que nos faz achar que ter medo é uma vergonha. O telefone fixo começou a tocar tanto que se tornou impossível esconder que algo se passava. Os meus pais, sempre lá, sempre atentos. Perguntavam e sabiam que algo se passava. Eu nada. Nem explicava. Dizia apenas que eu resolvia para nāo se preocuparem. Um desses dias, o meu pai atendeu. Atravessou-se no meu caminho e atendeu ele. Voz colocada e de poucos amigos: 
- Quem fala? Uma amiga? Quem? Nāo, nāo pode. Ela nāo está. 
Estava, sim. A única coisa que passei a saber foi o nome dela e que nāo, nāo era do colégio. 
Evitei isto, aquilo, e muita coisa… Os meus pais acharam que talvez fosse um arrufo. Nāo era. Nāo era. Nem sabia quem ela era. Evitei muita coisa. Mas ir embora ao fim de um dia de escola nāo podia evitar. Tinha sempre de voltar para casa. 
Eram 16:20. A rua enchia-se de gente depois do toque. Era mais um fim de tarde e tinha de ir para casa. Ir para casa passou a ser um acto de coragem. No meu silêncio. Na minha vida. 
Neste dia, quebrou-se o silêncio. Saí. Atravessei a estrada porque vi que o Rui também tinha saído. O Rui apanhava sempre o mesmo autocarro que eu. O Rui. Gostei sempre do Rui. Meio rebelde, meio envergonhado, calças rasgadas, tinha uma banda, olhos azuis, mal falávamos. Uma tentativa de namoro que tinha corrido mal, nada de especial. Gostava imenso do Rui. Muitos dias esperava o autocarro com ele mas quase sempre sem grandes palavras. No banco muitas vezes uma espera infinita. Nāo tivemos muitas mais palavras para trocar. Sem maldade. Era assim.  Foi assim. Nesta tarde, sem ele sequer perceber, tentei acompanhar o passo do Rui. No receio de ficar para trás sozinha. 
Atravessei a estrada para nāo perder o Rui de vista. Era o medo de ir sozinha. De repente surge um vulto de uma rapariga de 18 anos... Aproximou-se repentinamente furando os grupos em frente aos cafés da rua. 

A partir daí deixei de ver o Rui… As māos dela directas aos meus cabelos. À minha cabeça. A força de um corpo alto, muito maior. Atirada para o chāo, ali fiquei zonza e tonta depois de uma chapada que me colocou o ouvido a apitar. Deixei de ouvir. Deixei de ver. Perdi o rasto da esperança do passo do Rui. Agora via umas Dr Martens vermelhas e apenas a sua biqueira de aço. Uma, duas, três vezes directas ao meu estômago. Caída no chāo. Cigarros apagados na minha cabeça. Uns quantos cabelos queimados. Uma eternidade de tempo. Do fundo da rua correu a Tânia, minha amiga, para agarrar aquela miúda que mais parecia um animal selvagem.
Numa rua cheia de gente… Valeu-me a Tânia. 
Saltou para as costas dela como uma mochila: larga a minha amiga. Foi a Tânia. Obrigada Tânia. Ainda ouvi umas vozes: vāo chamar alguém, chama aí alguém. Foi a Tânia que a agarrou e lhe disse para desaparecer dali. Depois de espantar aquele "bicho" a Tânia levantou-me do chāo. Sacudiu-me. Eu nāo sentia o corpo. Nada. Apenas queria sair dali. O Rui estava em frente da papelaria ao fundo da rua naquele momento, quando o vi. Um alvoroço. Eu só queria sair dali. A Tânia ficou para trás. Eu queria sair dali.   
Foi um caminho diferente até ao autocarro. Horrível. Sabia que nāo podia ficar por ali. Esperei uma eternidade pelo autocarro. Chegou finalmente. O Rui também. Entrei. O Rui entrou. Cansada. Exausta. Envergonhada. Magoada. Nāo consegui mais. Caíam-me todas as lágrimas  que até ali tentei esconder. O Rui, sem dizer nada, aproximou-se de mim. Foi ali ao meu lado em silêncio até eu sair na minha paragem. De cada vez que caía mais uma lágrima ele erguia a māo e limpava-me o rosto. Foi assim. O caminho todo. O autocarro parou. 
Cheguei a casa. Māe, é māe. Ainda no intercomunicador e a minha māe falou em sobressalto:
- O que tens? O que te aconteceu? 

Nāo consegui esconder. Subi. Cheguei. Disse. Contei tudo.

Foi, tenho a certeza, o que me salvou. Contei os dias de inferno para trás também. Como eu, na minha frente dois adultos indignados: Mas como e porquê? 
Eu também nāo sabia sequer porquê. Mas nāo existe jamais qualquer razāo possível que justifique esta selvageria. 
Prontamente o meu pai, agarrou em mim e disse-me: apartir de agora sou eu que trato deste assunto, meu amor. Vens comigo. Temos de te proteger. Fui. Fomos.
De volta ao colégio. O assunto foi tratado como deve ser. Entre adultos.
O meu pai reuniu todas as informações que sabia que precisava para identificar quem tinha feito uma coisa daquelas e tudo para apresentar uma queixa. 
Esta miúda, já mulher maior de idade, tinha de ser informada que tinha cometido um crime e que estava proibida de se aproximar de mim em qualquer circunstância que fosse. E que cada vez que por mim passasse tinha de mudar de passeio para nāo se aproximar. 
Assim foi. Nunca mais se aproximou.

Falei. Foi o que me salvou. O meu pai, obrigada meu valente pai.
Sábio nas palavras. Enorme nas atitudes.
Um coraçāo de ouro, um homem bom, mesmo bom. Exigente e com um feitio forte, justo sempre justo. 
No momento em que os meus pais souberam, senti logo o alívio de quem já nāo está sozinha. 
Estes sāo assuntos de adultos. Nāo sāo brincadeiras de criança. E nāo, nāo se resolve com mais violência. Resolve-se quebrando silêncios com o apoio certo. Resolve-se com ajuda de adultos, adultos com bom senso. Grande pai, o meu. Grande māe, a minha.  <3

Desistimos de fazer queixa quando a realidade daquela família se mostrou um desespero. O meu pai, bom homem como é, explicou apenas que a queixa nāo existia se ela nunca mais se aproximasse de mim.  Assim foi. Nunca mais se cruzou no meu caminho.

Anos mais tarde soube que tudo tinha sido porque a rapariga era, na altura, namorada de um rapaz qualquer do meu colégio. Achou ela que o namorado me achava graça. Eu nāo sei, nunca soube, nem me interessa. Interessa que eu nada tinha feito, muito menos achar graça ao rapaz dela.  

O que interessa é que gostava mesmo era de deixar esta mensagem ao adolescente que tem visto a sua imagem estes últimos dias infinitamente repetida e espalhada por todo o lado: 

- Agora podes achar que o que sentes nāo vai passar. Mas prometo que passará. Sabes porquê? A vergonha nunca devia ter sido tua. Nāo guardes mais essa vergonha contigo porque nāo é tua. Acabou. O teu pesadelo acabou. A vergonha passou a estar nas māos e na vida de quem te atacou. Vergonha, muita vergonha pura e simplesmente para quem te atacou. Sei bem o que sentes. Passará. Passará.

Fotografia de infância tirada por uma amiga na rua do colégio.








domingo, 3 de maio de 2015

Infinitamente, Tua Māe


O dia foi atípico. 
Diferente. Foi dia da māe mas foi difícil parar para ler ou escrever uma linha. É quase meia-noite. Sou māe ontem, hoje e sempre. Amanhā quero ter mais calma que hoje e que ontem. Nāo importa se hoje o dia foi cheio demais para apreciar o sol, a luz ou o tempo. Sei que hoje nāo foi exemplo e temos a vida toda. O que interessa mesmo é ser tua māe. Sou e serei todos os dias, todos os momentos, para sempre. Valeu-me ser o teu colo neste dia. Onde no meio do caos, da confusāo, continuavas a ser a minha bebé, aconchegada no peito a adormecer embalada no som de quem passava, no som do pulsar da alma. Descansar ao peito de māo dada ao céu, nas nuvens limpas do que se aproxima. Foi um dia atípico, sim. Nāo foi apenas diferente, foi atribulado, confuso, a correr… Mas nāo, nāo foi um dia mau por isso, por ti, por nós. Porque na tua māo se agarrava o tempo que pelo passo da corrida se perdia. Nāo se perdeu. Sou tua māe. Por isso jamais se perde. E serei. 
De corrida passo, mesmo sem mais minutos ou segundos, para te lembrar que nāo me esqueço. Sou tua māe, nāo apenas hoje. Sou tua māe. Nāo me esqueço. Mesmo que corra estradas, pedras ou desmaie nas escaladas. Mesmo hoje sendo o teu colo que amanhā certamente nāo quererás da mesma maneira. Sou tua māe. E sāo muitos os dias em que mesmo que de mais nada me lembre, lembro-me que sorrirei sempre por ser tua māe. Este colo nāo tem princípio nem fim. Nāo começa, nem acaba. É nosso, é teu. Assim. Infinitamente.