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sábado, 30 de agosto de 2014

Poucas Palavras


Hoje apetecem pouco as palavras. Na minha frente, nos meus olhos, a cada dia o início e a cada dia o fim. 
A vida brindou-me com a felicidade do nascimento mas bateu-me à porta a tristeza da eminente despedida. 
Chama-se Fernanda, a minha vóvó Fernanda. A doença e a dor têm levado a melhor. 

Hoje, no quarto, as duas camas feitas. No canto o cadeirāo, uma cadeira de rodas e um vulto de amor em dor. Entre lágrimas dizia: 
"Tive azar no fim da vida. A culpa foi daquela queda... Sem me mexer deixei de conseguir fazer tudo por ela"  
E chorava.  Também ele se prepara para a despedida. 
"Achas que ela volta?" 
Nāo sei. Nāo sei. É difícil. Que mais lhe diria?
  
O relógio quase às cinco horas. 
Agora no hospital: as batas, o desinfectante, as regras. 
"Hoje pode entrar. Mas nāo saia sem passar o desinfectante. Fique o tempo que quiser" 

Nāo é verdade. Esse tal "tempo que eu quiser" nāo existe. Está a acabar. 
Sei pouco desta vida mas sei que a minha avó nada perto deste fim merecia.







terça-feira, 24 de junho de 2014

94 Anos


Hoje faz 94 anos a minha querida avó. Tenho sorte. Fui neta de 3 avós. Sim... 3. Uma história linda que agora nāo vou contar. Duas continuam a partilhar connosco os dias, a vida. 

Hoje faz 94 anos a minha querida avó. A vovó Fernanda foi sempre como o doce mais açucarado e mais belo da pastelaria. Um doce. A alegria. A simpatia. Uma beleza. 
O seu rosto iluminava-se sempre que me via pela porta. 
Mesmo doente, ainda hoje tenho a sorte de merecer o seu sorriso rasgado cada vez que apareço. 
Na porta. Pela porta. O sorriso.
Apareço pouco, menos do que gostaria. Sempre que possível. 
A vida baralha-nos o tempo. É difícil. A doença troca-nos as voltas e magoa. 
Somos uma família com sorte. Têm sido 94 anos de beleza. 
A dor tem começado a crescer como crescer tem custado a doer. 
É a doença. Levou-lhe a memória. Levou a minha vovó Fernanda como me lembro. Há anos. 
Faço de tudo para que a sua ausência de memória nāo faça esquecer a minha. 
Guardo-a como a conheço: um doce... O melhor da pastelaria. 

Os seus cabelos brancos lembram sempre as histórias de ir dormir, os vestidos cosidos à māo e os  bordados tāo perfeitamente trabalhados. É maravilhosa a minha avó. 

Hoje, longe da memória de outros tempos agarra ainda assim na māo da minha filha como se fosse a minha. Sim, como se fosse a minha. A māo.
Olha-a nos olhos, tenta segurá-la todo o tempo. Ama-a instintivamente ao colo. 
Diz-lhe: Ana Rita, Ana Rita. 
-Avó... Minha avó... É  a minha filha, chama-se Amália. 
Os segundos passam e diz: Catarina, Catarina... 
Repete sucessivamente o nome das suas netas. 
Eu repito: Avó, a minha avó...
Levaram parte da minha avó...
Tāo distante e tāo perto. 
O amor e a ternura com que olha a Amália fazem valer a vida que tantas vezes já nāo tem. 
Pode baralhar, confundir, nāo lembrar... Mas será sempre a mais-perfeita-avó. 

Amália... Gostava tanto que um dia recordasses como eu a tua bisavó.
A minha querida avó que a memória levou. 
Mais que os parabéns, avó, quero muito dizer-te que o amor ficou. A memória assim decidiu e deixou. 


sábado, 2 de novembro de 2013

Chamavam-lhe Amália

África, 1973

Os tempos eram outros. A terra Moçambique. A vida diferente. Os anos passaram como passam para todos. Hoje continua uma mulher lindíssima. Outra idade, mas lindíssima. Outra experiência, mas finíssima. Quando a viam na rua chamavam-lhe Amália. Ria-se sempre que lhe pediam para cantar um fado. Outros tempos também os de Amália. 
- Nāo canto. Nāo canto. Nāo sou eu. 
Nāo, nāo era. Chama-se Maria. Alexandrina. Mas Maria. 
Ao colo, neste dia, o meu irmāo. Tempos que eu nāo partilhei. Faltavam uns anos ainda. Mais tarde, cresci a ouvir em família sobre o seu bom gosto, as casas em África, a sua força, a sua história, a sua teimosia.  
Ontem ao ver fotografias relembrei essa beleza única de outros tempos. Nas fotografias uma diva do cinema. Mas na vida nunca quis, na realidade, nunca lhe passou pela cabeça. Tantas vezes me perguntou como eu conseguia subir a um palco sem medo. 
- Nāo avó, nāo se sobe a um palco sem medo. 
E logo me respondia: - Entāo como consegues? 
Falou-me da única vez que pisou um palco. Da vez em que petrificou em frente a um batalhāo de gente.  Foi obrigada. Nāo queria. Sempre disse que nunca quis. 


Na vida é a força. Sempre que perdeu levantou-se e andou. Seguiu. E perdeu, levantou-se e andou. E perdeu outra vez recentemente numa idade em que já nāo devia ser permitido. Mas perdeu, perdeu quando o meu tio se despediu sem aviso. Depois desse dia, só depois desse dia envelheceu. De pé, mas envelheceu. Envelhecemos todos. Mas a minha Maria Alexandrina nāo mais foi a mesma. 
Levaram-lhe a força, a vontade. Mantém a postura, a classe, a beleza, mas levaram-lhe a força.

Só tu, meu amor, trouxeste de volta parte dessa força. 
Quando chegares saberás do que estou a falar. É a bisavó.
A vovó Xandrina. 
Na vida o que conta é mesmo a família.