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quarta-feira, 23 de julho de 2014

Entretanto Vivemos



Estes dias tenho viajado pelo sorriso da minha filha, o amor do e pelo pai dela, a nostalgia de Londres, dos filmes, dos sonhos, dos amigos que lá deixei, dos festivais de cinema, da emigraçāo, da distância... Mas acima de tudo tenho viajado pela idade avançada das minhas avós e o contraste gritante da velhice com a infância. 

Agora que é tudo tāo mais intenso e sensível. O perfeito tornou-se perfeitíssimo. O triste passou a trágico. Disse, digo e escrevo vezes repetidas que tenho vivido muito e sempre intensamente.  Agora ainda mais. 
Ver um filho crescer torna-se no maior e mais completo plano de vida de sempre. A par disto crescem connosco alguns medos e a tristeza amputada de algumas inevitabilidades. 
Os contrastes fazem-se ainda maiores. Percebemos que a vida começa e termina quase no mesmo sítio. Entretanto vivemos. 

Entretanto vivemos. 

terça-feira, 24 de junho de 2014

94 Anos


Hoje faz 94 anos a minha querida avó. Tenho sorte. Fui neta de 3 avós. Sim... 3. Uma história linda que agora nāo vou contar. Duas continuam a partilhar connosco os dias, a vida. 

Hoje faz 94 anos a minha querida avó. A vovó Fernanda foi sempre como o doce mais açucarado e mais belo da pastelaria. Um doce. A alegria. A simpatia. Uma beleza. 
O seu rosto iluminava-se sempre que me via pela porta. 
Mesmo doente, ainda hoje tenho a sorte de merecer o seu sorriso rasgado cada vez que apareço. 
Na porta. Pela porta. O sorriso.
Apareço pouco, menos do que gostaria. Sempre que possível. 
A vida baralha-nos o tempo. É difícil. A doença troca-nos as voltas e magoa. 
Somos uma família com sorte. Têm sido 94 anos de beleza. 
A dor tem começado a crescer como crescer tem custado a doer. 
É a doença. Levou-lhe a memória. Levou a minha vovó Fernanda como me lembro. Há anos. 
Faço de tudo para que a sua ausência de memória nāo faça esquecer a minha. 
Guardo-a como a conheço: um doce... O melhor da pastelaria. 

Os seus cabelos brancos lembram sempre as histórias de ir dormir, os vestidos cosidos à māo e os  bordados tāo perfeitamente trabalhados. É maravilhosa a minha avó. 

Hoje, longe da memória de outros tempos agarra ainda assim na māo da minha filha como se fosse a minha. Sim, como se fosse a minha. A māo.
Olha-a nos olhos, tenta segurá-la todo o tempo. Ama-a instintivamente ao colo. 
Diz-lhe: Ana Rita, Ana Rita. 
-Avó... Minha avó... É  a minha filha, chama-se Amália. 
Os segundos passam e diz: Catarina, Catarina... 
Repete sucessivamente o nome das suas netas. 
Eu repito: Avó, a minha avó...
Levaram parte da minha avó...
Tāo distante e tāo perto. 
O amor e a ternura com que olha a Amália fazem valer a vida que tantas vezes já nāo tem. 
Pode baralhar, confundir, nāo lembrar... Mas será sempre a mais-perfeita-avó. 

Amália... Gostava tanto que um dia recordasses como eu a tua bisavó.
A minha querida avó que a memória levou. 
Mais que os parabéns, avó, quero muito dizer-te que o amor ficou. A memória assim decidiu e deixou.