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quarta-feira, 9 de julho de 2014

Somos Māes Nāo Somos Gordas



 Foto de: Jade Beall


Jade Beall recorde este nome.
Esta mulher fez um trabalho fotográfico de uma sensibilidade tocante. 
"A Beautiful Body"
Depois de ter sido māe auto-retratou-se com o seu rebento de uma forma crúa e cheia de amor. Da sua imagem ao espelho diferente, nova, surgiu a ideia de fotografar outras mulheres a quem também a maternidade deixou marcas no corpo.

A gravidez marca. Para além do grande marco de beleza que é na vida, também é marcante no corpo. Nas entranhas. Na estética. A beleza redefine-se. Como um baralho de cartas que se baralha e volta a dar.
A sociedade parece mais que nunca saber valorizar isto e disponível para novos padrões de beleza e aceitaçāo. Há inúmeras campanhas que apontam nesse sentido e projectos fascinantes como este chegam a um mundo de pessoas que o abraçam com amor, respeito e admiraçāo.

A isto falta ainda chegar e tocar mentalidades supérfluas. Mas já dizia a minha avó... "Nāo se pode agradar a Gregos e a Tróianos." 

Que se lixem a estética, a perfeiçāo aparente e os padrões de beleza instituídos. 

Somos māes minhas senhoras, nāo somos gordas.  Ensina-me todos os dias o meu próprio pai e o teu pai, Amália.    
Para quem nāo tem homens fabulosos destes em casa... Por favor nāo se cansem de repetir isto:
Somos māes. O resto é conversa.





Fotos de: Jade Beall
Projecto: A Beautiful Body

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Perdi. Perdi Metade.



Férias. Ou pelo menos uma pausa. 
Aqui os cães ladram e as caravanas não passam. Hoje foi o teu primeiro dia de calor, aquele calor de verão... Com cheiro a campo e tranquilidade de relva. O som ecoa pelos montes e perdemos a noção das horas. São 21:30... Podiam ser 17:00. As folhas esvoaçam no ar quente... E o som. O som. Quero ficar aqui para sempre. 
Com 3 meses e pouco mais já quase não choras. A rotina é leve como não era. As cólicas são raras desde os dois meses e meio. O teu sono à noite como o nosso, longo e tranquilo. O choro raramente aflitivo. Os sorrisos constantes como o pai. A certeza de que a vida agora existe cada vez maior.
Um senão... Um grande senão... De madrugada entre fotografias do ano passado estarreci... Porquê? Não me apercebi, até hoje, não me apercebi... Tive nos últimos anos cabelos saudáveis ao vento. Muitos... Longos... Soltos... Hoje vi. Perdi metade. Entre gravidez, parto e hoje. Não percebi. 
Perdi. Perdi metade. 

Faz parte, dizem. Não me apercebi.
Até hoje não me apercebi.
Tenho pena. Muita. 
Perdi. Perdi metade. 

terça-feira, 13 de maio de 2014

Nāo É Razāo


Cansa-me tanto esta tristeza de todos os dias querer escrever e na realidade ser ainda tāo difícil de cumprir. 
A verdade é que sou todos os dias confrontada com escolhas importantes para gerir o meu tempo. O nosso tempo.

Os dias começam e acabam quase antes de começar. 

Agora, comecei felizmente a ginástica pós-parto e, pelo menos isso, consigo cumprir. A Amália lá vai comigo e contamos juntas séries de 20. De um a vinte voltamos ao início. Quarenta parece mais que duas vezes vinte. Tudo é uma questāo de perspectiva. 
Os quilos, os mais incomodativos, os piores ficaram. Estāo cá. Os fáceis foram embora numa semana. Os últimos cinco ficaram aqui. Permanecem "alapados" como super cola 3. 



Na fotografia, o contentamento pelos 8 quilos perdidos em muito poucos dias, logo após o parto. 

Cresci e aprendi o valor da sabedoria e do envelhecimento, a beleza do tempo em nós. A minha bela, bonita e estupenda avó ensinou-me, sem uma única palavra, a beleza do tempo fisicamente em nós. E a vida tem-me ensinado também a importância de tudo o resto... Aqueles lugares comuns, sim. E sim, é totalmente verdade a importância do que nos vai cá dentro. Tudo o resto se perde, de facto, bem mais cedo que aquilo que nos vai cá dentro. Mas apesar da importância do que somos ser grandiosamente maior do que o que aparentamos... Apesar de tudo isso:

É preciso estofo para as mudanças do corpo após a maternidade. É. 
O corpo é incrível em todo o seu trabalho árduo e nāo merece em momento nenhum do processo descontentamento ou revolta. Nenhum. 
É agarrar nessa transformaçāo, abraçá-la e dar a volta. 
Há que ter a certeza: queremos voltar ao lugar? 
Queremos porque é isso que somos. É isso que sempre fomos. 

As novidades já sāo tantas que nāo precisamos de ter de gerir mais essa de ficar com um novo peso. Por isso há que sair de casa e ir. Ir em conjunto com outras māes contar até 20, 40, 60 ou 700000 mil.
"Um, dois, esquerdo, direito. Encolhe a barriga e estica o peito."  Contar e ao mesmo tempo partilhar. Rir e ao mesmo tempo matar pela raíz aquilo que nos podia vir a ser pesado futuramente. Peso pesado. 

Este é o momento em que se escolhe: Estou bem assim ou nāo? A resposta é: nāo. 
Mesmo no auge do cansaço, vale-nos a entrega, o compromisso e a dedicaçāo. Há que respeitar as māes, mais ainda todas estas que se esforçam para voltar à forma de onde partiram.  

E nāo... A mim nāo me chegam os comentários de que estou igual... 
Agradeço. Acarinham-me. Gosto. Mas ainda nāo. Nāo estou. 

Por isso venham daí essas contagens até ao infinito. Seja de 20 em 20. Seja de 100 em 100. 
O importante é contar e descontar. Também eu "quero voltar ao ponto de partida". 
E voltarei.

Ser māe é muita coisa mas nāo é nem será nunca razāo para abandonar o que somos. 





sábado, 15 de março de 2014

O Regresso A Casa




Foram muitos os dias na Maternidade. Mais do que era de esperar. Vi māes chegarem. Vi māes partirem. E nós fomos ficando. Nada de grave. Mas para nāo ser grave tivemos de ficar. Ir ficando. Um dia pelo resultado de umas análises. Noutro por um tratamento. Noutro por outros exames. E lá fomos ficando. A tristeza de se ficar, ir ficando, acentua ao longo dos dias. O querer a nossa casa. O querer a privacidade. O regresso torna-se um desejo longínquo. Vamos relativizando. Adaptando. Aceitando pela saúde, pela segurança. Aprende-se a olhar à volta e ver melhor. Aceitar a nossa grande sorte por nāo ser nada de grave. Agradecer por nāo sermos a bonita mulher da cama 5 que teve um parto prematuro e vive com a força e o desespero de um filho recém-nascido nos cuidados intensivos. 
Ela ali. Rodeada de māes. Māes com os seus bebés recém-nascidos. Māes que podem pegar nos seus filhos ao colo. Māes que sentem o cheiro do seu bebé e lhes acalmam o choro. Esta māe nāo. Esta força de māe sorri em encontros no corredor porque o seu bebé sobrevive. Deita-se e acorda sozinha à espera  de melhores notícias. E o corpo, esse dá-lhe os mesmos sinais de todas as outras que ali estāo. Esta māe, apesar da história, sorri com frequência, mais que a cama 3, 7 ou 8. Sorria na certeza de um futuro melhor. Esta māe cala a dor das outras sem falar. Com sorrisos, calma e esperança.

Mas nós ao fim de cinco dias de maternidade... Enfermeiros e médicos exemplares... Cuidados extremos... Comigo e com todas as mulheres em todos os quartos, em todas as camas... Nós deixamos para trás a vida brilhante de um lugar chamado Maternidade Alfredo de Costa. Um lugar que muitos tentam fechar e sobre o qual dizem ou escrevem barbaridades. Na realidade, no real, na verdade dos dias, do ponto de vista do utente: um lugar mágico. Com uma qualidade de serviço surpreendente. 

Corredores longos cheios de dedicaçāo e trabalho árduo. De dia. De noite. Naquele lugar continua a vida de centenas de pessoas. Seja māes, pais, bebés, enfermeiros ou médicos. Por cada māe passam dezenas de profissionais de topo. Transmitindo segurança, conhecimento e tranquilidade. 
É difícil? É. Nāo minto. Foi. Porque demasiados dias longe de casa é muito difícil em momentos de fragilidade. Foi seguro? Foi. Mesmo quando 48 horas depois tive as chamadas "dores tortas" e achei que ia morrer. Sim achei. 

Achei.
A dor das contracções é uma dor profunda mas nāo assusta. Sabemos o que está a acontecer. Sabemos que a natureza faz o seu trabalho. 
48 horas depois... Nāo se espera dores maiores que as contracções do parto. 
Nāo esperava. Desconhecia. Chamam-se "dores tortas". Achei que ia morrer. Nāo tinha ouvido falar e parece que nāo é assim tāo comum.  Foram um segundo parto. Um parto de útero vazio, de útero apressado a voltar ao lugar num fôlego só. Um útero a pretender fazer em horas o trabalho que deve  ser feito em dias. Essas sim, foram dores horríveis. 
Pelo inesperado, pelo desconhecimento, pelo medo, pelo choro da Amália como reacçāo ao meu. As lágrimas caíam-me de dor, de medo, de ouvir a minha filha chorar, gritar. A Amália nāo chora muito, é calma, tranquila, sempre em paz... Naquele momento chorava o seu pequeno corpo inteiro. Gritava. Foram momentos para apagar, esquecer. Passou. Estava tudo bem. Passou.

Cinco dias depois, o regresso a casa. Um regresso merecido. Uma vinda em paz. Despedi-me. Foi o adeus à enfermeira Marlene que me cativou desde o primeiro segundo. O adeus ao enfermeiro Tiago que me trazia sempre as luvas de água quente. A enfermeira Denise e o enfermeiro Fernando Prada que partilharam as dores mais difíceis, no parto e depois... Sendo que foram também os primeiros a ver a pequena Amália... E por fim, a enfermeira Amélia... que em jeito de graça perguntava se eu achava que ia para as Seychelles depois de ver o tamanho da minha mala de maternidade. E dizia:
- Amália, Amália é lindo... E há tāo poucas. Ana, sou bruta por natureza, nunca digo isto... mas tem aqui uma lindíssima Amália. 
Obrigada enfermeira Amélia, obrigada Maternidade Alfredo Da Costa por terem tratado da minha Amália... De mim, de nós. 
Obrigada a todos os profissionais que nos acompanharam, seguiram e cuidaram.

Foi o adeus e o desejado regresso a casa.
Voltar. 
Entrar. A nossa casa. O cheiro perfumava e o chāo brilhava. Nada fora do lugar. Tinha saído a correr. Nāo tinha deixado nada tāo certinho. Ao avançar dos passos a certeza de que nāo tinha deixado a casa assim. Tudo no seu devido lugar. 
De Amália ao colo segui para os quartos. 
E Chorei.
Chorei. A felicidade de estar em casa. Mais que tudo, chorei com o que nos esperava:


Balões pelo chāo em festa. Uma casa alegre com cheiro a flores nas almofadas e mensagens de boas vindas em todo o lado espalhadas. 

Foi o melhor voltar a casa. 
Obrigada Pedro. Obrigada por tudo o que és. Neste e em todos os outros dias.
Foi o nosso regresso a casa.
Saímos dois. Voltámos três.

Foi eternamente o melhor regresso a casa.