Foram muitos os dias na Maternidade. Mais do que era de esperar. Vi māes chegarem. Vi māes partirem. E nós fomos ficando. Nada de grave. Mas para nāo ser grave tivemos de ficar. Ir ficando. Um dia pelo resultado de umas análises. Noutro por um tratamento. Noutro por outros exames. E lá fomos ficando. A tristeza de se ficar, ir ficando, acentua ao longo dos dias. O querer a nossa casa. O querer a privacidade. O regresso torna-se um desejo longínquo. Vamos relativizando. Adaptando. Aceitando pela saúde, pela segurança. Aprende-se a olhar à volta e ver melhor. Aceitar a nossa grande sorte por nāo ser nada de grave. Agradecer por nāo sermos a bonita mulher da cama 5 que teve um parto prematuro e vive com a força e o desespero de um filho recém-nascido nos cuidados intensivos.
Ela ali. Rodeada de māes. Māes com os seus bebés recém-nascidos. Māes que podem pegar nos seus filhos ao colo. Māes que sentem o cheiro do seu bebé e lhes acalmam o choro. Esta māe nāo. Esta força de māe sorri em encontros no corredor porque o seu bebé sobrevive. Deita-se e acorda sozinha à espera de melhores notícias. E o corpo, esse dá-lhe os mesmos sinais de todas as outras que ali estāo. Esta māe, apesar da história, sorri com frequência, mais que a cama 3, 7 ou 8. Sorria na certeza de um futuro melhor. Esta māe cala a dor das outras sem falar. Com sorrisos, calma e esperança.
Mas nós ao fim de cinco dias de maternidade... Enfermeiros e médicos exemplares... Cuidados extremos... Comigo e com todas as mulheres em todos os quartos, em todas as camas... Nós deixamos para trás a vida brilhante de um lugar chamado Maternidade Alfredo de Costa. Um lugar que muitos tentam fechar e sobre o qual dizem ou escrevem barbaridades. Na realidade, no real, na verdade dos dias, do ponto de vista do utente: um lugar mágico. Com uma qualidade de serviço surpreendente.
Corredores longos cheios de dedicaçāo e trabalho árduo. De dia. De noite. Naquele lugar continua a vida de centenas de pessoas. Seja māes, pais, bebés, enfermeiros ou médicos. Por cada māe passam dezenas de profissionais de topo. Transmitindo segurança, conhecimento e tranquilidade.
É difícil? É. Nāo minto. Foi. Porque demasiados dias longe de casa é muito difícil em momentos de fragilidade. Foi seguro? Foi. Mesmo quando 48 horas depois tive as chamadas "dores tortas" e achei que ia morrer. Sim achei.
Achei.
A dor das contracções é uma dor profunda mas nāo assusta. Sabemos o que está a acontecer. Sabemos que a natureza faz o seu trabalho.
48 horas depois... Nāo se espera dores maiores que as contracções do parto.
Nāo esperava. Desconhecia. Chamam-se "dores tortas". Achei que ia morrer. Nāo tinha ouvido falar e parece que nāo é assim tāo comum. Foram um segundo parto. Um parto de útero vazio, de útero apressado a voltar ao lugar num fôlego só. Um útero a pretender fazer em horas o trabalho que deve ser feito em dias. Essas sim, foram dores horríveis.
Pelo inesperado, pelo desconhecimento, pelo medo, pelo choro da Amália como reacçāo ao meu. As lágrimas caíam-me de dor, de medo, de ouvir a minha filha chorar, gritar. A Amália nāo chora muito, é calma, tranquila, sempre em paz... Naquele momento chorava o seu pequeno corpo inteiro. Gritava. Foram momentos para apagar, esquecer. Passou. Estava tudo bem. Passou.
Cinco dias depois, o regresso a casa. Um regresso merecido. Uma vinda em paz. Despedi-me. Foi o adeus à enfermeira Marlene que me cativou desde o primeiro segundo. O adeus ao enfermeiro Tiago que me trazia sempre as luvas de água quente. A enfermeira Denise e o enfermeiro Fernando Prada que partilharam as dores mais difíceis, no parto e depois... Sendo que foram também os primeiros a ver a pequena Amália... E por fim, a enfermeira Amélia... que em jeito de graça perguntava se eu achava que ia para as Seychelles depois de ver o tamanho da minha mala de maternidade. E dizia:
- Amália, Amália é lindo... E há tāo poucas. Ana, sou bruta por natureza, nunca digo isto... mas tem aqui uma lindíssima Amália.
Obrigada enfermeira Amélia, obrigada Maternidade Alfredo Da Costa por terem tratado da minha Amália... De mim, de nós.
Obrigada a todos os profissionais que nos acompanharam, seguiram e cuidaram.
Foi o adeus e o desejado regresso a casa.
Voltar.
Entrar. A nossa casa. O cheiro perfumava e o chāo brilhava. Nada fora do lugar. Tinha saído a correr. Nāo tinha deixado nada tāo certinho. Ao avançar dos passos a certeza de que nāo tinha deixado a casa assim. Tudo no seu devido lugar.
De Amália ao colo segui para os quartos.
E Chorei.
Chorei. A felicidade de estar em casa. Mais que tudo, chorei com o que nos esperava:
Balões pelo chāo em festa. Uma casa alegre com cheiro a flores nas almofadas e mensagens de boas vindas em todo o lado espalhadas.
Foi o melhor voltar a casa.
Obrigada Pedro. Obrigada por tudo o que és. Neste e em todos os outros dias.
Foi o nosso regresso a casa.
Saímos dois. Voltámos três.
Foi eternamente o melhor regresso a casa.