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sexta-feira, 6 de março de 2015

No Amor Só o Coraçāo Bate


Temos de zelar pelo melhor para os nossos filhos. Estar atentos ao seu crescimento, ao seu desenvolvimento. À sua integraçāo e educaçāo. Amamos os nossos filhos inatamente. 
Nāo o sentimos como obrigaçāo. Acontece. Amamos ponto.
Habitualmente é assim. Assim costuma acontecer. 
Mas nem sempre. 

É por isso que hoje escrevo. 
Quero muito que a minha filha viva sempre em paz. Na tranquilidade do amor. Na paz de um lar.
Um dia, a minha filha crescerá e já nāo estará debaixo do calor da minha asa. Da nossa asa.
Por isso acredito que é preciso falar ao longo da sua educaçāo para aprender por si a estar alerta.
Quando achamos que apenas acontece aos outros, na verdade nāo há nada que nos garanta isso.

Porque pode surgir a violência? O que a define? O que se faz? 
Surge quando menos se espera e de quem menos se espera.
Define-se por se passar a sentir ameaçado, com medo, dentro da própria casa por agressões físicas.

Há casas que nāo sāo lares. Há casas onde o amor nāo existe, por onde não passou, escapou e fingiu passar. 
Casas onde vivem, mulheres, māes e/ou filhas, em silêncio. 
Por medo, por vergonha, por terror, por falta de esperança. 
Sem presente. Achando-se sem futuro. 
O futuro existe. Existe sempre. 
Mesmo quando ao fundo de um túnel escuro se veja apenas um muro.
Para o futuro existir melhor, o passo pode passar por falar. Falar pode ajudar a saltar o muro.
Com quem? Com quem pode ajudar. 

Mesmo quando pensa que nāo tem a quem contar. 
A linha SOS mulher (808 200 175) é uma linha com profissionais especializados para dar apoio a mulheres vitimas de violência doméstica. 
Seja menina, seja mulher, telefonar pode mudar o presente e encher de futuro a vida.

Se nāo é vitima de violência é nesta altura do texto que começa a revirar os olhos. 
Nāo revire. Também é para si o que escrevo.
É obrigaçāo de todos, saber o que fazer para ajudarmos. 
Se tem conhecimento de algum caso: denuncie. 
O silêncio é o alimento de qualquer abuso. 
Nāo alimente o silêncio. Nāo proteja agressores. 
Dê a māo a quem precisa. Dê a sua, a minha e a de todos. 

Tenho a sorte, e sim repito, a sorte de viver numa família de amor. Onde sou amada e muito protegida. Guardada e cuidada. 
É isso que o amor faz: Cuida.  
Digo sorte porque é isso mesmo. Pode acontecer a todos. Ninguém escolhe ser agredido. Acontece. Pode acontecer.
Sāo inúmeras as famílias onde o amor nāo habita, nunca habitou e onde outro sentimento enganador se mascarou de bom. 
Criou realidades com base numa mentira. Naquela ilusāo.
O que nos parece óbvio pode deixar de ser quando há casos em que se acredita que é o amor em excesso que faz cegar. O amor em excesso? Nāo existe tal coisa. Amar nāo é maltratar. Em contexto nenhum. O amor cuida. Olha por nós.  

Por amor à causa em defesa de todas as vítimas, pelo maior respeito à plataforma Maria Capaz e também pelo amor que tenho à minha profissāo, criei e ajudei a lançar a campanha 'NO AMOR SÓ O CORAÇĀO BATE".



Acredito de corpo e alma que todos, mas mesmo todos, devemos ter uma parte activa na luta pelos direitos humanos. 
Este deve ser o mote base para todos, para todas as pessoas, em todos os lugares:

Artigo 1° da Declaraçāo Universal dos Direitos Humanos: 

"Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade." 

E é importante lembrar isto. Mil vezes. Todas as vezes. 
Mesmo que olhos em frente a nós se revirem de tédio esta conversa. Mesmo que em massa me caiam em cima porque sāo chocantes ou violentas as imagens que fiz. Mesmo que muitos no seu direito gostem de verde, azul ou amarelo. Mesmo que… 

A violência existe. 
Passe a palavra. Partilhe este video. Fale sobre a violência. Nāo pode imaginar nem onde, nem quando, nem quem este número vai ajudar. Na possibilidade de ajudar - partilhe. Mal nāo faz.
Mulheres, meninas, adolescentes, crianças, homens por vezes, sāo vítimas de maus tratos sob as mais diversas formas. 
Há ainda um enorme caminho a desbravar em vários campos mas este é um começo. 
Se chegou a esta parte deste texto:
Obrigada

quarta-feira, 4 de março de 2015

A Minha Avó

A minha avó desenhada pelo meu pai 


Em Junho a memória falhava.
Em Julho, comida passou a ser passado.
Em Fevereiro, deixou para trás a vida e o tempo contado.

Mesmo avisando que ia partir nāo passou a ser melhor essa ideia de te ver ir.
A vida disse adeus à minha avó.

Antes de nascer ninguém nos diz como esta vida vai ser. Como vai doer.
Nascemos. Vivemos... Morremos.
Na falta das palavras certas lembro hoje o que ainda em Junho dizia de coraçāo apertado:

"A vovó Fernanda foi sempre como o doce mais açucarado e mais belo da pastelaria. Um doce. A alegria. A simpatia. Uma beleza. 
O seu rosto iluminava-se sempre que me via pela porta.
Mesmo doente, ainda hoje tenho a sorte de merecer o seu sorriso rasgado cada vez que apareço.
Na porta. Pela porta. O sorriso.
Apareço pouco, menos do que gostaria. Sempre que possível.
A vida baralha-nos o tempo. É difícil. A doença troca-nos as voltas e magoa.
Somos uma família com sorte. Têm sido 94 anos de beleza.
A dor tem começado a crescer como crescer tem custado a doer.
É a doença. Levou-lhe a memória. Levou a minha vovó Fernanda como me lembro. Há anos.
Faço de tudo para que a sua ausência de memória nāo faça esquecer a minha.
Guardo-a como a conheço: um doce... O melhor da pastelaria.
Os seus cabelos brancos lembram sempre as histórias de ir dormir, os vestidos cosidos à māo e os  bordados tāo perfeitamente trabalhados. É maravilhosa a minha avó.
Hoje, longe da memória de outros tempos agarra ainda assim na māo da minha filha como se fosse a minha. Sim, como se fosse a minha. A māo.
Olha-a nos olhos, tenta segurá-la todo o tempo. Ama-a instintivamente ao colo.
Diz-lhe: Ana Rita, Ana Rita.
-Avó... Minha avó... É  a minha filha, chama-se Amália.
Os segundos passam e diz: Catarina, Catarina... 
Repete sucessivamente o nome das suas netas. Eu repito: Avó, a minha avó...

Levaram parte da minha avó...
Tāo distante e tāo perto.
O amor e a ternura com que olha a Amália fazem valer a vida que tantas vezes já nāo tem.
Pode baralhar, confundir, nāo lembrar... Mas será sempre a mais-perfeita-avó.
Amália... Gostava tanto que um dia recordasses como eu a tua bisavó.
A minha querida avó que a memória levou.
Mais que os parabéns, avó, quero muito dizer-te que o amor ficou. A memória assim decidiu e deixou."  

Hoje, agora em 2015… De coraçāo esmagado.
Já nāo faz anos a minha avó.
Nāo mais posso afirmar que levaram parte da minha avó…

Deixou de se baralhar… Deixou de se confundir… De nāo se lembrar…

Foi maravilhosa a minha avó.
E será sempre a mais-perfeita-avó.
Será sempre o mais-perfeito-doce.
A mais-bonita-simpatia.
A mais-bela-alegria.

Amália… Por isto hoje repito:

Gostava tanto que um dia recordasses como eu a tua bisavó.

Avó, hoje, agora… Quero muito repetir-te que o amor ficou. 
A memória, a tua, partiu. 
A vida, a tua, desistiu… 
Mas o amor, o nosso, esse ficou.  
Ficou. 

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Pedaço de chão, bocado de ar



Há dias em que somos pedaços de chão, um grão de areia ou uma grande parte do mar. 
Montanhas que aparecem. 
Farpas bicudas num nevoeiro cerrado ou paisagem de um paraíso encontrado. 
É estar na hora da espera por braços desatados. 
De rima fácil em rima portátil nos tropeções pobres que se desmancham em emoções. 
Nāo fazer ideia. Não façam ideias. 
Disparar. Metralhar. Lançar-me em voos. E aterrar sempre neste lugar.
Lugar certo, incerto. Vazio, cheio. Perfeito. Desfeito.
Deve estar tudo certo, mesmo quando achamos não estar. 

Saudades de escrever. Saudades de vos contar.
Deve estar tudo certo. Mesmo quando parece nāo estar.

Na foto, com o meu irmāo, que desde sempre é o exemplo certo do que é tomar conta.
O saber dar a māo. Miguel estás sempre no meu coraçāo.



quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Nāo Faz. Faria. Faria nāo, faz.


 Faz hoje 70 anos. 
Nāo os completou mas faz hoje 70 anos.

Nāo sou de datas. Esqueço-as sempre. Mas há dias que nāo podemos deixar passar em branco.
Se hoje o seu coraçāo batesse… Se…. Seria um grande dia. 

Hoje deixou de ser um grande dia mas nāo vai jamais continuar a ser apenas um dia.

Quando nasce um filho, com ele nasce também uma māe. 
Há 70 anos a minha avó passava a ser māe. Māe de um filho que brilhou a vida toda. 
Māe de um filho que nasceu, cresceu mas nāo envelheceu. Pelo menos... nāo tanto quanto se gostaria.
Logo, jamais este voltará a ser um enorme dia.  

Se hoje o seu coraçāo batesse. Se… Seria um grande dia.
Nāo faz. Faria. Faria nāo. Faz. 
Meu tio, eras enorme na nossa vida. <3 

sábado, 7 de fevereiro de 2015

11 Meses



Há um ano uma barriga feita balão avançava-me gigante no espaço. Chegava sempre antes de eu entrar, a todo o lado. Chegava, chegava e depois lá chegava eu. Incrivelmente enorme e merecedora de toda a minha atenção. Abraçava-a a toda a hora no receio do andar não a aguentar. De dia. De noite. Quieta... numa espécie de sussuro para não a incomodar. De dia, não andava, arrastava-me. Sem saber nada de especial desta vida, nada de nada, ansiava no pânico deste futuro. O futuro que é hoje. 
Era eu capaz de cuidar e proteger um pequeno e delicado bebé? Era eu capaz de tomar conta e aprender  todo o dia a cada passo? Claro que era. Somos todas. Basta querer. 
Na altura desenhava-lhe o rosto, descrevia-lhe a alma. Para quê? Nem sei bem… Porquê? Sāo nossos filhos. Nāo precisamos saber escolher. Longe de precisar… Nāo queremos. Sāo nossos, basta serem. 
Doze meses depois de tamanha barriga cheia de sonhos, onze meses de realidade viva numa vida cheia de melhor e ainda maior. 
Onze meses. 
Impressionante. Uma barriga que num ápice bateu asas e voou. Agora está, amanhā já nāo. 
Barriga ao lugar, braços cheios, abraços intensos, barrigadas de amor. Vida perfeita de imperfeiçāo de sol e luar.
Onze meses, onze relatos de dias cheios, malucos, intensos, perfeitos, loucos. 
Onze meses, onze listas de descobertas, incríveis, perfeitas, imperfeitas, amadas, desorganizadas, malucas, engraçadas, loucas, quietas e inquietas. 
Onze meses de ti e de nós, meu amor. 





segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Foi Dia Que Ainda Hoje Nāo Acabou


Parte-me a alma o seu olhar cansado. 


Em jeito de mimo parece que segreda como é valente e feliz. 
Estamos doentes. Vamos começar por aí.
Quer dizer… Passou sexta, sábado, domingo e hoje... E aquela quinta-feira ainda nāo acabou. 
Quero que seja breve, mais breve por favor. 
Parte-me a alma o seu olhar derrotado. 
Ainda assim, o seu sorriso... Embora farto, meio cansado, parte saturado.
É que já foi quinta mas ainda hoje nāo acabou.

O próximo passo: reconquistar o "poder fazer" e a vontade de comer.
Enfim, ninguém quer nos seus planos ver um filho adoecer.
Depois também ficaram doentes os avós. Agora nós.
Ainda assim de movimento lento e semi-empenado:
Onde está o nariz? Onde está o nariz?
Está ali. Está aqui. Está aqui. Plim.