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domingo, 2 de março de 2014

Antes De Tu Chegares

© Ana Rocha De Sousa

Pode parecer estranho... Mas foram 3 anos.
Três anos fora do país. Fora deste meu lugar. Num outro incrível e ambicioso sonhar.
Desde que voltei, no entanto, continua a existir algo para limpar, arrumar, ajeitar, guardar e voltar a limpar, e limpar e nāo sei se já tinha dito: limpar, organizar, escolher, e limpar, limpar, limpar, limpar.
A que me refiro? Refiro-me a mais caixotes e caixas que só agora desaparecem ou encontram o seu novo lugar. 

Nāo daqui de casa. 
Mas sim... Desta "minha" casa: de mim.
Ainda. 
Porquê? Porque na realidade foram muitas as coisas empacotadas que se dispersaram por vários lugares. Aqui e ali, em todo o lado. Um cansaço esgotante em mim. Quase quase no fim mas parece ser interminável. Muitas coisas importantes, muitas coisas para dar, muitas para vender, muitas sem sequer saber o que fazer. 
Na realidade, tudo vindo de uma antiga casa cá, uma casa em Londres e um atelier em Lisboa. 3 mudanças numa. Na realidade 4. Ao todo 4 lugares.
Sem nada a ver com a nossa casa nova para te receber, Amália. Nada. Mas sim, as inúmeras caixas de luz do meu trabalho de artes plásticas. Os desenhos, os quadros, as experiências, os trabalhos todos de belas artes... Tudo isso em conjunto ainda com candeeiros ou abat-jours que sāo para vender porque estāo quase novos, impecáveis e lindos vindos de Londres... Isso ou fotografias, ou mais casacos... Mas nāo tenho mais lugar em mim para tudo isto. Ou mesmo para todas aquelas camisolas, malas, sapatos que têm um melhor destino que este... Melhor que este aqui... Este já sem lugar em mim...

Ontem sem tempo. Hoje sem tempo. Eram 07h30 quando hoje o dia começou. E nāo acabou. Nem vai acabar. Nāo acaba. 
E hoje que começa a semana 37. 
37 semanas. 

Antes de tu chegares, meu amor, nāo quero ter nada pendente. Quero tudo tratado. Tudo no seu lugar, o que tiver lugar. Sem lugar fica o mundo suspenso de caixotes de caixeiro viajante. Sem lugar fica o que nāo serve, o que atrapalha. Sem lugar fica tudo o que tenta ganhar espaço no teu caminho. 
Nāo há lugar para o que se tentar pôr no teu caminho. 

Quando chegares a vida começa. Sem passado. Sem caixas. Sem gavetas por arrumar. 
Quando chegares o meu mundo que estremeça. Sem tempo. Sem limites. Sem pesos para carregar.

Espera por favor, só mais um bocadinho porque estou mesmo quase a acabar. 

Já sāo 37. Eu sei. Estamos mesmo quase a acabar. 
Mentira. 
Mentira.
Estamos mesmo quase a começar. 




segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Gata Borralheira

Meu amor, e a quem me lê habitualmente:

Nestes dias a minha ausência tem sido imensa. Lamento por isso. Nem sempre vos escrevi como é meu hábito e gosto muito. A época para além de festiva tem sido muito dura. Mudar de casa foi uma tarefa difícil pelas mais variadas razões. Hoje escrevo porque estou quase no fim dessa fase gata borralheira. Nāo preciso de bruxa má nem de madrastas, nem sapatinho, nada... Quer dizer, amanhā pela meia-noite quem sabe se o pai me dá um sapatinho para experimentar ou se eu viro abóbora. A ver vamos.
Brincadeiras de parte, a nossa história pouco tem a ver com a desta humilde gata. Porém, estes dias duros têm sido como os dela de pano e balde na māo. Abre caixote, arruma caixote, limpa, lava, roupa aqui e acoli, pendura, segura, afasta, arrasta... Enfim, todos sabemos ou imaginamos o que é a vida assim. Nem me queixo muito, pois habitualmente a minha é uma vida bem longe da experiência diária dessa gata. Está a acabar, está quase a acabar... Ao contrário dela, espero amanhā virar princesa pela meia-noite. 
Quem sabe, quem sabe! Se o príncipe pai calçar o sapato à māe tenho a certeza que o sapato vai brilhar. A ver vamos se a māe também.