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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O Medo, A Mudança e O Momento




Hoje sei mais sobre a mudança interior que a cegonha nos traz. Refiro-me à grande mudança em nós  com a gravidez. Do que se segue ainda nada sei. Imagino. 

As lágrimas e as gargalhadas exageram-se inicialmente. A revoluçāo no corpo é tāo enorme que toma conta de nós, nem sequer temos essa noçāo clara. Chorar e rir torna-se mais que banal num dia com 24 horas. O medo, o pânico e a incerteza no silêncio do segredo mais bem guardado, durante os primeiros três meses, tomam a alma de assalto. Levam-nos para um universo longe daqui muitas e muitas vezes, mais do que as vezes que aqui estamos. Vamos lado a lado com o medo de perder a felicidade extrema que ainda agora se ganhou. Foi assim comigo. Foi assim connosco. 

Os três meses passam. A revelaçāo. Achamos que agora o medo vai passar. Esse assombroso medo de perder. Nāo passa completamente. Cada fase traz consigo um novo medo, uma nova revoluçāo. Medos naturais de quem quer muito que tudo esteja no lugar, que tudo seja certo, que tudo corra pelo melhor. 
Em tantos meses o que mais se sente é este medo, e outro e outro e outro e sempre outro. Cada medo a seu tempo. Com as suas razões sensatas e com as suas razões exacerbadas. 
Desenganem-se futuras māes se acham que convosco será diferente. Com mais ou menos medos, o medo passa a estar em nós. Faz parte. Pode ser aterrorizador, pode ser mais leve, mas está na natureza do nosso corpo, da nossa alma, do nosso coraçāo de māe. Māe é māe desde o segundo em que sente, em que sabe, em que tem a certeza. 

A sensaçāo atenua. O exagero diminui com o passar do tempo. Com o fim da grande etapa das 40 semanas à vista. Ainda assim, continua lá: estará tudo bem quando nascer? Correrá tudo bem? 
- Agora conte até 10 movimentos todos os dias entre as 9h e as 21h - dizem os médicos.
Assim é. Anota-se cada dia na caderneta da grávida como se da Bíblia se tratasse. Se nāo se sentir o bebé 10 vezes ao longo de 12h (depois da semana 35) tem de ir imediatamente à urgência fazer um CTG.
- Ah... E falta ainda um exame. Um exame simples que todas as grávidas têm de fazer na semana 36/37. 
Um exame que nunca mais sai o resultado. Se for positivo, como acontece a tantas māes, complicações podem aparecer devido ao parto e atenções extra sāo precisas nestas últimas semanas. Parece que nāo acaba mais...
Os medos. O medo. Sāo tantos. Inúmeros. 

Mas nos intervalos do medo rasgam-se alegrias únicas, memoráveis, belas, flamejantes, puras. 
O teste positivo. A primeira ecografia. O primeiro batimento do coraçāo. A confirmaçāo: menino ou menina? Os exames quando nos relaxam a alma durante uns dias. O primeiro pontapé sentido. O primeiro pontapé partilhado. A certeza de que tudo vai estando normal. Os planos. O enxoval. O quarto. A preparaçāo. O ler. O aprender. O sentir. Acima de tudo, o sentir.

O misto de emoções sensibiliza cada ponto da nossa existência. Acontece muito mais do que se fala. A felicidade é levada ao extremo e o medo também. Tudo nos invade a alma. 

Para além de tudo isto, a maior transformaçāo aconteceu. A vontade de: 
Cozinhar. Coser. Criar. Fazer bolos. Decorar. Tratar. Organizar. Planear. Estruturar. 
O aprender a ser melhor, maior e completo.

Sempre trabalhei muito, e dedicadamente, em tudo aquilo que faço. Mas sempre o fiz muito por mim. A pensar em mim. No meu futuro. Nos meus gostos. No que amo. No que faço bem. Numa ideia singular do que se pode fazer e conseguir. 
É natural, claro. Até aí o que existe somos nós, primeiro nós. O que fazemos. O que somos ou queremos ser. Onde vamos. O que pretendemos. Nós. Cada um de nós virado para o que é ou pode vir a ser. Mudamos verdadeiramente quando passamos a pensar e a sentir por eles. Eles... Os nossos filhos. As grandes mudanças vêm de dentro de nós. E sāo elas que em si nos tornam melhores, enormes. 

Sinto-me maior, melhor. Depois de experimentar o verdadeiro medo. Depois de entender a força da natureza. Depois de viver a felicidade extrema. 

Ainda há muito ou quase tudo para viver. Eu sei, eu sei. Este foi, é apenas o começo. 
Vamos lá entāo. Vamos: ser tua māe. 
Semana 36 e 4 dias. 

sábado, 4 de janeiro de 2014

Devia Ter Dançado


Caixa de Luz "Desisto" da colecçāo Auto-Retrato: Memórias

Sāo histórias que se contam. Nem sempre. Quero dizer: de tanto lembrar uma recordaçāo por vezes deixa de ser uma memória para se transformar na história repetida que se conta sobre aquele momento, sobre aquele tempo de infância. Falo nisto porque ontem voltei a um lugar onde já nāo ia há muito, mesmo muito tempo. 

Ali sentada, ao olhar pela janela lembrei aquilo que nāo sei se é a história real ou já apenas a memória da própria história. Dali via o teatro onde pela primeira vez pisei um palco. Devia ter os meus 6 anos. Mas repito, esta pode ser a história da memória e nāo o relato certo e justo para o acontecimento real. Porque falo nisto aqui? Porque tinha 6 anos, sentia e vivia nāo de acordo com a idade que tinha. 
O que ficou em mim do tempo é o que conto aqui:

Tinha aí uns 6 anos. Era muito envergonhada. Ninguém acredita mas sempre fui. Agora menos. Agora melhor. 
Andei no ballet uns anos no colégio. À hora de almoço lá ficava eu no meio de muitas meninas, grandes e pequenas, maiores, menores, gordas, magras, altas, baixas, mais velhas ou mais novas. Mas lá estava eu com o recreio reduzido de 1h30 a 45 minutos. A ideia encantava-me. Sonhava com a dança, os tutus e as piruetas. Um problema: nāo me mexia. Podia e devia ter dançado. Mas nāo me mexia. Em mim desde cedo o pânico de errar. Porquê? Porque ali estavam as mais velhas que já faziam ballet desde a minha idade. Porque elas, essas sim, já sabiam o que estavam a fazer. Olhava para elas e pensava que era suposto eu já saber fazer tudo aquilo. Olhava e nenhuma me explicou que eu estava ali para aprender a fazer aquilo e que ainda nāo tinha de saber fazer. Lembro particularmente a Joana. A Joana nāo dançava, a Joana levitava. Fazia tudo. E tudo com leveza. Para além do resto, eu ainda tinha medo da professora. Ela era uma elegância e penso que se chamava Manuela. A Manuela tinha sempre consigo aquilo que eu achava ser uma "bengala". Era maravilhosa pela sua postura direita e elegante. Sempre. Ela e a sua "bengala" numa das māos para ensinar a postura correcta às meninas de tutu. Desde a posiçāo dos dedos à posiçāo do pé. Tinha medo dela. De olhar rijo e ombros direitos nāo abria um único sorriso para mim. 
É o que me lembro... De ficar à porta em grupo à espera e sentir que nāo pertencia ali. Nem à Manuela nem a nenhuma delas porque era pequena demais para me aturarem. Fui aguentando porque tinha pedido à māe para ir para o ballet. Mas depois nāo me conseguia mexer. Durante bastante tempo. Por vergonha. Podia e devia ter dançado. Nāo tudo. Nāo. Mas ballet.
Nāo o fiz. Acabei por nāo o conseguir fazer em tempo útil. Tenho as melhores recordações do colégio mas ali falhei e o Colégio falhou. Sei hoje que podia e devia ter dançado. Bastava que aquela pressāo me tivesse sido aliviada por uma professora com a sensibilidade de um sorriso. Bastava que aquela timidez fosse percebida por alguém ali com olhos atentos. Bastava que aquela classe fosse para a minha idade e nāo fossemos todas tāo diferentes. Bastava que eu tivesse dito aos meus pais o que sentia. Bastava tanta coisa. Mas eram poucos os meus anos. E aos meus pais nem eu nem ninguém lhes disse.

Ontem ali sentada à janela, lembrei tudo isto porque naquele teatro subi ao palco com essa classe de ballet. O Teatro cheio de gente, cheio de pais e avós. A barriga doía porque eu tinha de ir, e sabia que nāo sabia, que nāo queria, porque ia fazer mal, porque todos iam ver, porque as "grandes" faziam bem e eu fazia mal. Porque nāo fazia. Porque ninguém disse que nāo era suposto ter nascido a saber fazer. Porque ninguém avisou que era preciso fazer, tentar e errar para aprender. Ninguém disse. Nesse dia, já no palco, claro que entrei ao contrário, virava para a esquerda quando devia ir para a direita, ficava quieta quando me devia mexer. Nem sei se mais alguém se lembrará disto. Eu lembro assim. O dia em que pisei pela primeira vez o palco foi um dia de horror. Em que me salvou a beleza dos tutus rosa, das sapatilhas de principiante e nāo as de pontas como as das "grandes", bem como o meu penteado cabelo loiro com uns tótós perfeitos feitos pela Joana "grande". Quando acabou o tormento fiquei feliz porque já estava. Tinha acabado. Nāo fui mais para o ballet tentar fazer nada. Fui apenas até ao dia em que a minha māe me perguntou se eu queria mesmo continuar e eu ganhei coragem para dizer que nāo. Ali nāo queria. Devia ter dançado, mas nāo ali, no sítio certo quem sabe. Talvez esse sítio nāo existisse. Hoje sei que nāo era falta de jeito a minha. Era medo. Medo e vergonha. Vergonha e responsabilidade. Responsabilidade de querer fazer bem. Nāo fiz. Eram 6 anos. 

Meu amor, quem sabe um dia vais ler isto. Serve este momento para te dizer:
Que eu consiga a difícil tarefa de te entender sempre. De te ler. Acima de tudo naquilo que nāo vais ser capaz de me dizer. Que eu perceba em ti tudo aquilo que nāo terás a capacidade de entender. Acima de tudo, o que em tempo útil, e por ti só, nāo vais ser capaz de ver. Nem de saber.
Meu amor. Nascemos para aprender.