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domingo, 5 de janeiro de 2014

Já Amanhecia


Hoje amanhecia e as duas nāo dormíamos. Dizem que acontece muito. Nāo sei. Aquilo que sei é que a angústia é grande. Sempre dormi bem. Mas hoje: saber que tem de se dormir, que tem de se descansar e nāo ter sono foi um tormento. Seja mais que normal para todas as grávidas, ou nāo, especialmente no último trimestre, confesso que nāo é agradável o peso na consciência. Sentir-te a mexer inquieta a noite inteira como se fosse hora de diversāo foi motivo para nāo chegar o Joāo Pestana. Valeu-nos o bom dia do pai no espelho da casa de banho com pasta de dentes. Aconchegou o coraçāo quando li e reli. Mais ainda quando o pai acordou e percebeu que era tāo tarde, ou melhor, tāo cedo e nós ainda de olhos abertos. Foi o pai que finalmente nos acalmou e adormeceu. Com a māo no cabelo da māe a falar do mar e de fotografia. 
Desculpa minha princesa por nāo te ter conseguido adormecer, por nāo me ter conseguido adormecer a tempo e horas. 
Parece que acontece. Aconteceu até bem de manhā.
Espero que estejas bem. A māe: cansada.  

sábado, 4 de janeiro de 2014

Devia Ter Dançado


Caixa de Luz "Desisto" da colecçāo Auto-Retrato: Memórias

Sāo histórias que se contam. Nem sempre. Quero dizer: de tanto lembrar uma recordaçāo por vezes deixa de ser uma memória para se transformar na história repetida que se conta sobre aquele momento, sobre aquele tempo de infância. Falo nisto porque ontem voltei a um lugar onde já nāo ia há muito, mesmo muito tempo. 

Ali sentada, ao olhar pela janela lembrei aquilo que nāo sei se é a história real ou já apenas a memória da própria história. Dali via o teatro onde pela primeira vez pisei um palco. Devia ter os meus 6 anos. Mas repito, esta pode ser a história da memória e nāo o relato certo e justo para o acontecimento real. Porque falo nisto aqui? Porque tinha 6 anos, sentia e vivia nāo de acordo com a idade que tinha. 
O que ficou em mim do tempo é o que conto aqui:

Tinha aí uns 6 anos. Era muito envergonhada. Ninguém acredita mas sempre fui. Agora menos. Agora melhor. 
Andei no ballet uns anos no colégio. À hora de almoço lá ficava eu no meio de muitas meninas, grandes e pequenas, maiores, menores, gordas, magras, altas, baixas, mais velhas ou mais novas. Mas lá estava eu com o recreio reduzido de 1h30 a 45 minutos. A ideia encantava-me. Sonhava com a dança, os tutus e as piruetas. Um problema: nāo me mexia. Podia e devia ter dançado. Mas nāo me mexia. Em mim desde cedo o pânico de errar. Porquê? Porque ali estavam as mais velhas que já faziam ballet desde a minha idade. Porque elas, essas sim, já sabiam o que estavam a fazer. Olhava para elas e pensava que era suposto eu já saber fazer tudo aquilo. Olhava e nenhuma me explicou que eu estava ali para aprender a fazer aquilo e que ainda nāo tinha de saber fazer. Lembro particularmente a Joana. A Joana nāo dançava, a Joana levitava. Fazia tudo. E tudo com leveza. Para além do resto, eu ainda tinha medo da professora. Ela era uma elegância e penso que se chamava Manuela. A Manuela tinha sempre consigo aquilo que eu achava ser uma "bengala". Era maravilhosa pela sua postura direita e elegante. Sempre. Ela e a sua "bengala" numa das māos para ensinar a postura correcta às meninas de tutu. Desde a posiçāo dos dedos à posiçāo do pé. Tinha medo dela. De olhar rijo e ombros direitos nāo abria um único sorriso para mim. 
É o que me lembro... De ficar à porta em grupo à espera e sentir que nāo pertencia ali. Nem à Manuela nem a nenhuma delas porque era pequena demais para me aturarem. Fui aguentando porque tinha pedido à māe para ir para o ballet. Mas depois nāo me conseguia mexer. Durante bastante tempo. Por vergonha. Podia e devia ter dançado. Nāo tudo. Nāo. Mas ballet.
Nāo o fiz. Acabei por nāo o conseguir fazer em tempo útil. Tenho as melhores recordações do colégio mas ali falhei e o Colégio falhou. Sei hoje que podia e devia ter dançado. Bastava que aquela pressāo me tivesse sido aliviada por uma professora com a sensibilidade de um sorriso. Bastava que aquela timidez fosse percebida por alguém ali com olhos atentos. Bastava que aquela classe fosse para a minha idade e nāo fossemos todas tāo diferentes. Bastava que eu tivesse dito aos meus pais o que sentia. Bastava tanta coisa. Mas eram poucos os meus anos. E aos meus pais nem eu nem ninguém lhes disse.

Ontem ali sentada à janela, lembrei tudo isto porque naquele teatro subi ao palco com essa classe de ballet. O Teatro cheio de gente, cheio de pais e avós. A barriga doía porque eu tinha de ir, e sabia que nāo sabia, que nāo queria, porque ia fazer mal, porque todos iam ver, porque as "grandes" faziam bem e eu fazia mal. Porque nāo fazia. Porque ninguém disse que nāo era suposto ter nascido a saber fazer. Porque ninguém avisou que era preciso fazer, tentar e errar para aprender. Ninguém disse. Nesse dia, já no palco, claro que entrei ao contrário, virava para a esquerda quando devia ir para a direita, ficava quieta quando me devia mexer. Nem sei se mais alguém se lembrará disto. Eu lembro assim. O dia em que pisei pela primeira vez o palco foi um dia de horror. Em que me salvou a beleza dos tutus rosa, das sapatilhas de principiante e nāo as de pontas como as das "grandes", bem como o meu penteado cabelo loiro com uns tótós perfeitos feitos pela Joana "grande". Quando acabou o tormento fiquei feliz porque já estava. Tinha acabado. Nāo fui mais para o ballet tentar fazer nada. Fui apenas até ao dia em que a minha māe me perguntou se eu queria mesmo continuar e eu ganhei coragem para dizer que nāo. Ali nāo queria. Devia ter dançado, mas nāo ali, no sítio certo quem sabe. Talvez esse sítio nāo existisse. Hoje sei que nāo era falta de jeito a minha. Era medo. Medo e vergonha. Vergonha e responsabilidade. Responsabilidade de querer fazer bem. Nāo fiz. Eram 6 anos. 

Meu amor, quem sabe um dia vais ler isto. Serve este momento para te dizer:
Que eu consiga a difícil tarefa de te entender sempre. De te ler. Acima de tudo naquilo que nāo vais ser capaz de me dizer. Que eu perceba em ti tudo aquilo que nāo terás a capacidade de entender. Acima de tudo, o que em tempo útil, e por ti só, nāo vais ser capaz de ver. Nem de saber.
Meu amor. Nascemos para aprender.  

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Desejo Cumprido


Nāo te podia deixar impaciente. Assunto resolvido em casa: panquecas com mel. Resolvido por hoje... E a estas horas... Sim: 02:56 AM
Estavam maravilhosas. Estavam. Melhores que as daquela marca de gelados que nāo pensou em nós antes de mudar de instalações. Nem um telefonema, um postal, um sms, uma cartinha, nada... Pff. 
Mas nāo me deixei vencer. Estavam de cair para o lado. 

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Desejos

        

Não há direito... Não se faz isto a uma pré-mamã que saiu de casa às onze da noite só para comer panquecas com gelado e chocolate quente. Acho mal, muito mal, não pensarem nas pessoas. E agora? Como explico isto à minha filha?

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Ano Novo, Casa Nova



Hoje é o primeiro dia. Do ano. E da nossa casa organizada e calma. Falta apenas o teu quarto. Mas depois de tanta mas tanta correria e contratempos, aqui estamos. Finalmente calmos. Sem olhar para caixotes ou caixas no nosso caminho. O pai também já está a ficar melhor. Sim, o doutor avisou que demorava. Mas melhor, melhor. 
A passagem de ano já foi entre amigos, na nossa sala, na nossa cozinha, na nossa sala de jantar, no nosso hall, na nossa casa calma. Na tua. Na tua. Foi bom ontem termos partilhado o último dia do ano e o início do primeiro, contigo e com todos. Aqui.
A construir o teu lugar. Mais que uma simples casa com paredes e tecto...  Este é o nosso lugar. 
Esperamos por ti. 

Com amor,
2014 será o nosso ano. 


Caixa de Luz 120 cm x 80 cm da série Love_In_Progress








terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Feliz 2013, Ainda Melhor 2014





Em 2013 o pai e a māe juntaram-se. Em 2013 o pai e a māe viajaram. Em 2013 o pai e a māe riram. Em 2013 o pai e a māe sonharam. Em 2013 o pai e a māe voaram. Em 2013 o pai e a māe surpreenderam-se. Em 2013 o pai e a māe sentiram-te. Em 2013 o pai e a māe mudaram. Em 2013 o pai e a māe uniram-se. Em 2013 o pai e a māe partilharam. Em 2013 o pai e a māe viveram. 

Em 2014 o pai e a māe abraçam-te. 
Feliz Ano Novo



segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Gata Borralheira

Meu amor, e a quem me lê habitualmente:

Nestes dias a minha ausência tem sido imensa. Lamento por isso. Nem sempre vos escrevi como é meu hábito e gosto muito. A época para além de festiva tem sido muito dura. Mudar de casa foi uma tarefa difícil pelas mais variadas razões. Hoje escrevo porque estou quase no fim dessa fase gata borralheira. Nāo preciso de bruxa má nem de madrastas, nem sapatinho, nada... Quer dizer, amanhā pela meia-noite quem sabe se o pai me dá um sapatinho para experimentar ou se eu viro abóbora. A ver vamos.
Brincadeiras de parte, a nossa história pouco tem a ver com a desta humilde gata. Porém, estes dias duros têm sido como os dela de pano e balde na māo. Abre caixote, arruma caixote, limpa, lava, roupa aqui e acoli, pendura, segura, afasta, arrasta... Enfim, todos sabemos ou imaginamos o que é a vida assim. Nem me queixo muito, pois habitualmente a minha é uma vida bem longe da experiência diária dessa gata. Está a acabar, está quase a acabar... Ao contrário dela, espero amanhā virar princesa pela meia-noite. 
Quem sabe, quem sabe! Se o príncipe pai calçar o sapato à māe tenho a certeza que o sapato vai brilhar. A ver vamos se a māe também.