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terça-feira, 21 de abril de 2015

Olhares. E a Perfeiçāo.

Desenho de Beatriz Cabrita

Olhares que nāo se esquecem. Era esta a frase que guardei junto de uma fotografia que tirei em S. Tomé e que me marcou. Era o olhar profundo e único de uma miúda com que me cruzei, acabada de conhecer e a quem "roubei" uma fotografia trazendo-a comigo para sempre na mala. Mal sabia que anos depois um olhar tal e qual forte iria nascer e estar sempre ao meu lado. Em minha casa, a olhar para mim. E até a olhar por mim.

Há coisas que nāo se explicam. O olhar é uma inexplicável dessas maravilhosas coisas. Ontem, pela porta, entrava cá em casa ainda uma outra forma bonita de olhar.

Eu explico: hoje aos 20 anos, visita-me a minha pequenita prima. Pois… Até por ela já passaram 20 anos. Eu sei. Cresceu. Vai vivendo fora, crescendo no mundo e nos intervalos volta.  Foi a primeira bebé que eu vi crescer. Eu tinha 15 quando ela nasceu. Cresceu bela, fez-se linda. Nasceu como os comuns mortais e como todos tornou-se maior. A diferença: tornou-se A melhor também. Cada vez que penso em perfeiçāo lembro-me dela. É, aos meus olhos, a mulher que define a palavra perfeiçāo. Coraçāo sempre inteiro, cabeça no sítio, inteligência desde a menor à maior execuçāo. Uma jovem mulher de rosto seguro, beleza universal e inteligência transversal. Trazia na māo um presente. Ontem. E eu que sou tāo estupidamente esquisita com ofertas, fiquei logo de cara à banda. Na entrada ainda lá está o meu coraçāo. Derretido. Espalmado pelo chāo.  A minha pequenita prima, a enorme, bonita, perfeita, inteira Beatriz, ofereceu-me um retrato a carvāo da minha Amália e do seu olhar perfeito em linhas de brilho correcto e profundo. A própria Amália, olhava o retrato e espreitava por trás indignada à procura de desvendar o segredo de uma tal magia que nāo se compreendia. É por demais difícil captar a expressāo certa de um olhar na ponta de traços acrescentados passo a passo. Mas neste olhar, retrato desenhado, ninguém mais tem lugar marcado. A minha filha, ela e apenas ela, salta daquele rasgo de papel que ganha, como ela, vida. 
Em dias em que a arte despreza o realismo que em tempos idolatrou, ganha no mínimo um lugar de todo o destaque com o amor que trouxe e ficou. O amor à perfeiçāo constante, a tudo e em tudo na minha pequenita crescida e já adulta prima. O amor no olhar profundo da minha filha. O amor à dedicaçāo de todos os que se sentam e se entregam numa mesa, de papel e caneta na māo. O amor ao tempo que vai trazendo sempre, mais e melhor, de todos que amo. Este é daqueles presentes que se um dia, seja qual for a razāo, tiver de levar de casa em urgência poucos objectos… Este é certamente dos primeiros. 

Obrigada Beatriz, nāo só ganhei mais um olhar profundo em casa como recordei a beleza do carvāo simples a dar vida ao branco das folhas. 
Hoje dizias… nāo vou por aí nem nunca pensei ir por aí. Até nesse simples gesto se mostra a profunda subtileza da sua inteligência.  Pois nāo se falava de arte mas de coraçāo.
O meu ficou cheio, obrigada. És a mais perfeita perfeiçāo. 
    

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Este Presente Este Futuro


E o futuro, amor? 
Às vezes assombram-me ansiedades do futuro. 

Antes centrada apenas no meu. Agora mais que no nosso: no teu, meu amor. No teu.

Receio que este seja o país que te vê crescer. Um lugar maravilhoso mas sem presente, sem futuro. À espera que o tempo se acrescente. 
Receio por ver todos os que se desdobram em qualidades e talentos e que, ainda assim, este está longe de ser o lugar ideal para se crescer. 
O mundo nāo é fácil. Claro.  E amar Portugal inquestionavelmente também nāo é suficiente. 

Que lugar é este  que amo mas onde quase nunca o rigor acontece e a seriedade é brincadeira?
Que lugar é este que amo mas onde o bom e o melhor é incentivado a partir, a nāo voltar ou mesmo a acabar?
Que lugar é este que amo mas sem visāo, óculos ou binóculos se desculpa atrás de desculpas e se vai escapando entre furos e buracos?
Que lugar é este que amo mas onde pessoas atrás de pessoas esperam que algo aconteça, mude ou se transforme sem deixarem nada mudar, melhorar ou ser diferente.
Que lugar é este, que amor?
Para tantos viver em Portugal passou a ser como viver vitima de bullying, maus tratos ou violência psicológica. 
Que lugar é este que se transformou no esmagamento de sonhos em massa, de futuros em particular e de vidas em privado?
Que lugar é este que prevê tudo e erra sempre a estimativa ao lado?
Que lugar é este que cospe e deita fora o que é bom em prol do que é mau ou está errado?

Que lugar é este, amor?

É o lugar que nos viu nascer e temo profundamente que este nāo seja lugar para te ver crescer.   
Quem nāo vê isto é porque certamente nāo tem vivido e sentido este lugar, meu amor.

Desculpa se hoje o que digo nāo é feliz mas nāo se consegue ser sempre.