Com dias ou meses choram desalmadamente na hora do banho. Aquele arrepio, aquele desconforto do desconhecido. O tempo passa, o problema vira outro…
- Amália, temos de sair do banho!
- Na! Na! Na!
- Amália, meu amor, nāo se pode viver dentro de água. Anda lá!
E nisto, inicia-se todo um processo de adeus, tchau, buy buy. É precisamente nesta altura que eu penso todos os dias o mesmo: ela gosta mesmo de água. Ela gostava de viver dentro de água.
Encharcada, divertida no seu chap chap com o pa, mais conhecido por pato, diz-me adeus várias vezes e de todas as formas e feitios, na esperança genuína de me ver pelas costas. Na esperança amorosa de simpaticamente me explicar:
- Māe, nāo é preciso chegar aos 16, esta tarefa já seria muito melhor sem ti aqui…
Claro que é precisamente na altura em que tenho de pegar nela ao colo para a tirar e embrulhar na toalha. Os próximos minutos sāo sofridos. Os dela e os meus. Ela chora horrores com a sentida separaçāo "infinita" destas 24 horas até ao próximo banho, e eu fico no sufoco do choro dela por ter de a contrariar. Claro.
Ouvi, li e vi birras… Se vi, se li, se sei, se as fiz…
Quero agora tirar um mestrado para saber como lidar com elas. Sinto que estāo mesmo aí.
Socorro… Por agora é a hora do banho… E amanhā? Ou depois…
A alimentaçāo dos miúdos pode ser um pesadelo. Nalguns casos porque pura e simplesmente eles nāo querem comer ou porque nāo sabemos como fazer os miúdos comer.
Desde cedo, a pediatra da minha filha sempre me tirou um peso enorme de cima... Nāo vale comprar guerras, nāo vale a pena, sempre que ela nāo quiser comer nāo come. Assim foi, assim teve de ser.
A vontade teve de partir dela. Foram algumas as vezes em que, ainda mais bebé, isso aconteceu. Para aprender a comer a sopa foi difícil, foi um pesadelo. Passou.
Como? Nāo queria, nāo comia. Eu insistia. Errei por vezes e obriguei. Só tive sucesso quando mudei de atitude. Falei com a médica e percebi: tente apenas, nunca obrigue! Só assim resultou.
Hoje, a maioria das vezes, ela come tudo. Quando digo tudo, é mesmo tudo. Como a fotografia prova, chega mesmo a olhar o prato a meio milímetro e a tentar perceber se dali nāo vai nascer um admirável mundo de massa, esparguete, arroz, carne ou peixe… Na realidade, qualquer coisa… nem que seja um boneco desenhado, um elefante ou uma princesa de laço.
Muitas vezes remata ainda com um Ohhhhhhhhhhh na última colherada… Quem chega naquele momento, invariavelmente acredita que a miúda está com fome. É o ar dela incrédulo a avaliar o fundo do prato. Bem diferente é a expressāo de quem vê o prato, acabadinho de servir a chegar à mesa.
É importante servir a quantidade certa. Qual a quantidade certa? Pois...
Na era das desordens alimentares pode ser difícil responder a essa pergunta. Se os miúdos nāo apresentam nenhum distúrbio alimentar nem qualquer problema de peso, a dose certa é exactamente o que eles querem comer. Os miúdos, como nós, nāo sāo máquinas. Uns dias temos mais apetite e noutros temos menos. Interferir na alimentaçāo ao ponto de obrigar um bebé ou uma criança a comer pode trazer consequências futuras. Sāo guerras eternas que se constroem e que marcam profundamente a relaçāo dos miúdos com a comida. Comer deve ser um prazer para além da necessidade.
É nossa missāo enquanto pais, ensinar a comer. Educar a alimentar. Alimentar educando. Saber comer é ter com a comida uma relaçāo saudável. E é nessa ligaçāo que tantas vezes se encontram respostas a muitas perguntas.
Sempre que a Amália faz o seu "Ohhhhhhhhhhh", a seguir ainda come fruta e fica bem. Nāo chora com fome. Nem chora para se encher até cair para o lado. Também sei que se lhe desse mais massa depois do "Ohhhh" ela comia. Claro. E é esse o papel fundamental dos pais: temos de aprender a perceber a diferença entre "gosto tanto disto que enquanto me deres eu nāo páro" e o verdadeiro "māe, ainda tenho fome." Por outras palavras… O que eles querem comer com vontade e gosto é diferente de alimentar barrigas insufladas como um balāo e habituar a comer até explodir. É também, em parte, matemática. Se uma barriga é tāo pequenita, nāo pode naturalmente encher com doses que duplicam o seu tamanho. Como em tudo, é no equilíbrio que está a dose certa.
Difícil também é quando nāo gostam de comer.
O mundo por descobrir torna uma "chatice" o simples acto de sentar e comer. Trazer para a hora da refeiçāo o prazer e o convívio pode fazer milagres. Nunca, mas nunca, obrigar a comer. Aprendi com quem sabe.
Até porque na verdade, nenhuma criança passa fome com um prato de comida na frente.
Os entendidos no assunto dizem que para um bebé deixar a fralda precisa chegar aos dois anos habitualmente. Nos casos em que antes disso começam a utilizar o bacio (ou sanita com redutor), o que defendem acontecer, é mero resultado reflexo do conhecimento dos pais em termos das regularidades das necessidades dos filhos. Regularidades ou irregularidades à parte… Hoje aconteceu algo especial. A minha pequenita, de fralda posta desde que nasceu, estava na sala e começou a sentar-se sobre si mesma. Parecia um gesto reflexo para se sentar num bacio imaginário. Longe de acreditar na resposta, perguntei por graça: Meu amor, queres ir à casa de banho? Fiquei de queixo à banda quando a resposta foi - simmmmmmmmm. Como māe prevenida e esperançosa tinha em casa um bacio à espera da nova fase a qualquer momento. No fundo do meu pensamento estava sempre um "nāo pode ser!".
Pode, ai isso é que pode. Nāo interessa nada entrar em grandes detalhes. A verdade é que hoje, cá em casa, começou espontaneamente o processo "adeus fralda". Espantem-se os entendidos ou nāo… Aos 18 meses é possível. Com 18 meses dizem pouco, entendem muito, respondem a tudo.
Nāo tive de ensinar nada para além de lhe perguntar e validar a sua resposta.
Hoje foi o primeiro dia. É de rir, mas cá em casa foi mesmo uma festa.
E que mal tem? Para uma boa festa é apenas preciso uma excelente razāo.
As férias acabaram. Por graça repito que agora é que tenho de descansar. Passar férias passou a ser mais organizado e mais facilmente caótico. Temos sorte. A sorte da vida. Uma filha que nos enche a alma só de a ver dormir em paz ao final da tarde na sombra calma de um simples chapéu. Uma filha que nos rebenta o coraçāo naquele beijo inesperado sem aviso ou no abraço quente e forte que nenhum de nós implorou ou pediu. Temos sorte.
Andei com a barriga às voltas. Andei…
Nāo tenho escrito. O amor continua, nāo acabou, claro. Deixei de escrever porque mais que nunca decidi avaliar a segurança do que postava e escrevia. Desde que saiu a decisāo de um juíz sobre as publicações de fotos e informaçāo nas redes sociais sobre os filhos referente a um caso específico que em nada tem a ver connosco… No entanto, fez-me parar para pensar mais e a fundo.
Achamos que fazemos tudo, o melhor, o mais possível pelos nossos filhos… Gelei…
Decidi, e por isso escrevo: nāo voltarei a publicar fotografias da minha pequenina que a coloquem na mais ínfima hipótese em risco.
Sempre tentei ser equilibrada nas minhas opções. Por norma vou sendo. Gelei quando procurei e encontrei mais informaçāo. O mundo nāo é feito apenas de amor e de almas perfeitas. O mundo pode tornar-se perigoso e, neste caso, nada jamais vale o "tentar para ver". Nāo se brinca com a segurança de um filho. Nāo se brinca com o que possa, mesmo que eventualmente, prejudicar a harmonia e paz de uma família. Hāo-de existir milhares de māes que continuarāo a publicar fotografias dos filhos. Respeito. Apenas decidi que nāo vale mesmo a pena. Vejo agora de frente o risco. E com este nāo se brinca. A segurança banal e que sempre segui passava por coisas como: nāo dar informaçāo da localizaçāo, nāo colocar fotos dos filhos no banho ou nús, nāo fotografar com fardas da escola ou no bairro de residência, nāo postar fotografias que se possam tornar virais e/ou que se possam virar contra eles como motivo de ridicularizaçāo… Nāo fazer isto, nāo fazer aquilo… Uma lista que me parecia sensata e completa e que segui sempre à risca. Sobre locais só falava depois de já lá ter passado, por exemplo. Tudo absolutamente controlado e sensato. Percebi… Nāo é suficiente. Nem é justo.
Um filho está sob a nossa asa. Sob a nossa protecçāo… Mas "os filhos nāo sāo nossos". Sāo pessoas e também eles com os seus próprios direitos. Enquanto māe, nāo tenho o direito de expôr um filho meu. Sim, postar fotografias é expôr um filho. É mostrá-lo globalmente sem sair de casa. É muitas vezes torná-lo alvo de interesse sem o próprio sequer ter sido consultado. É tornar possível que a sua fotografia corra mundo e vá parar a parte incerta e desconhecida. E esse simples clique em "publicar foto" pode dar origem a inúmeras utilizações erradas. Desde a fotografia ser aproveitada para publicidade indevidamente ou até em casos bem piores ser manipulada e incluída em sites com conteúdo duvidoso, ou mesmo ainda ir parar a perfis falsos como sendo filho/a de outros pais.
Posto isto, decidi que nada mesmo nada, em momento algum, vale a publicaçāo da foto de um filho em que o mesmo seja identificável.
Obrigada pelo vosso carinho e por toda a partilha que aqui tem ocorrido. Essa partilha pode continuar a existir. Será apenas diferente. De hoje em diante, diferente.
Agarrar numa tesoura e … Zás… Ufa… Custou. O que a pequenita chorou... e a camada de nervos que eu apanhei. É que estava a anunciar ficar com um cabelo de futebolista, versāo anos 80, e nāo ia dar. Mal comecei a ver o arrebitar de umas pontas longas sem nexo tive de me encher de coragem.
Prova superada. A dificuldade foi acima de tudo o quanto a pequenita chorava e o que me partia o coraçāo. É que ela estava tāo revoltada e indignada com esta ideia de eu lhe estar a cortar o cabelo que contado ninguém acredita. A verdade é que parecia que lhe estava a fazer a pior coisa da vida…
De coraçāo amargurado lá ia, a custo, cortando aqui e ali. Absolutamente focada, a coisa resultou.
O pai, ia aparecendo e dizendo: Os caracóis todos!!!! E de repente, eu sentia-me qual Dalila a cortar os caracóis da força de Sançāo… Prova superada. O primeiro caracol guardado para a posteridade e um rosto a descoberto sem pontas anexas fora do sítio.
Aos 15 meses apenas... pois ela foi carequinha até tarde.
Um "recuerdo":
Agosto 2014
Junho 2015
A diferença é incrível. Sou daquelas māes que ama a comunicaçāo. E por isso mesmo, cada vez mais, me arrebata a evoluçāo incrível e a aprendizagem. O que nós já comunicamos…
Todos os miúdos sāo diferentes. Cada um com o seu tempo para isto e para aquilo. E se vou aprendendo alguma coisa, é isto mesmo! Respeitar o tempo deles é importante. Sem forçar aprendizagens. E sem vacilar com as vozes daqui e dali. Essa parte é mais difícil.
Aos 15 meses ainda nāo anda sozinha. Quando há crianças que andam aos 9 meses… Isto pode ser assustador e virar um bicho de sete cabeças. Para quê? Sem razāo. Na maioria das vezes se desenvolvem muito rápido a linguagem atrasam na marcha e vice-versa. Mesmo que se demorem em tudo, é o tempo deles. Andava com a cabeça em água porque ela nāo mastigava. Engasgava-se muito a comer pedaços mínimos… Perdi anos de vida com o pânico de que algo estivesse errado. Na creche comia tudo inteiro, pedaços, arroz, tudo. Em casa fazia birras e chorava por se engasgar imenso com o que quer que fosse sem ser passado na varinha. Esta semana, em casa, começou a comer grandes pedaços e a mastigar lindamente. Um peso que me saiu dos ombros. Menos um medo. Menos um receio. A pediatra brincava na última consulta: "Mas conhece alguém que nāo tenha aprendido a mastigar?" É facto, já mastiga.
Ainda nāo anda mas voa. Aliás, é provavelmente por isso que ainda nāo anda sozinha. Um destes dias, eu no sofá, ela no tapete a brincar e o pai também sentado a ler.
Ela: "-Mamā!"
Eu: "- Que foi, meu amor? Vem cá à mamā."
Nisto ela esqueceu-se que se chamava Amália, que era bebé, que ainda nāo andava... e puf… Levanta-se firme para andar na minha direcçāo. Em entusiasmo brutal só tive tempo de suster a respiraçāo e pensar a mil "em pé... sozinha"… a determinaçāo dela fez prever uma coisa e acabou noutra: um vôo picado aterrando junto a mim em choro assustado. Na realidade, nada que fosse perigoso, claro. Mas assustou-se. Felizmente nunca insistimos para ela tentar andar sozinha. Foi ela que literalmente se levantou e achou que já fazia aquilo desde que nasceu. Assim será outra vez um destes dias mas com um final mais feliz.
Quanto ao resto, já temos conversas longas. Ela entende tudo o que se diz e responde a perguntas fundamentais. Faz pedidos… bom… pedidos, pedidos nāo sei… Dá ordens. Aponta e ordena: Dá. Ou quando diz: áua. Que em Português significa água. Ou: uta que significa fruta. Mas de tudo penso que o dizer que sim é que alterou em tudo a comunicaçāo. Na verdade, alguém entender tudo o que se lhe pergunta, e ter a possibilidade de escolher entre o sim e o nāo como resposta, faz toda a diferença. O sim foi a alteraçāo mais significativa na linguagem até hoje.
Hoje é-lhe possível fazer valer a sua vontade. É a força de um sim ou o poder de um nāo.
É incrível a comunicaçāo, a partilha, a linguagem. E nós, pais, abrimos a boca de espanto o tempo todo. Nem percebemos como eles aprendem, como eles apreendem.
Sem dúvida, mais bonito ainda que ter filhos é poder comunicar com eles.
Amália, meu amor, um desejo para a vida: que a comunicaçāo entre nós seja sempre melhor, cada dia melhor. Sempre.
Andamos nesta dor que nāo passa. A garganta arranhada, a tosse que acorda o prédio durante a noite e os abraços que damos apenas uma à outra no receio de deixar os outros na mesma. A tosse quando ataca parecemos pequenos "gremlins". Estamos fartas. Eu fartíssima. Acima de tudo por ela, é um aperto vê-la assim constantemente incomodada com isto. Ontem, no dia da criança, quando íamos dar um passeio… Enfim… Um filme. Acabou por chorar desalmadamente e o carro todo sujo depois de vomitar imenso. Valeu-me o pai e os avós. Obrigada <3.
Sou inconsciente? Nāo. De maneira nenhuma. Os pediatras sempre o mesmo discurso: tem febre? Nāo, nāo tem. Nāo teve. Andamos nisto há 15 dias. Vamos estando bem nos intervalos porque ela é boa miúda, mas longe dos 100% como se percebe. Dificuldade para dormir com a tosse e a garganta a arranhar. Antibiótico? Para ela nem pensar. E para mim de nada vale porque segundo parece é viral.
Estou mesmo farta. As dores de garganta sāo chatas mas faço a minha vida. Fazemos.
Porquê? Como?
É que já foi bem pior. Desde a rouquidāo total ao silêncio absoluto pela falta de voz. Dores que eram muito piores. Agora é uma moínha, uma chatice. A irritaçāo da tosse. Enfim… Há-de passar.
É já uma espécie de estar doente nāo estando. Ou melhor, é um estar doente mas ignorando.
Se dizem que nāo há nada a fazer… Que a miúda está bem… Que é tudo muito normal… Entāo façamos a nossa vida normal. Quem sou eu para achar ou deixar de achar? Sou apenas uma garganta com um corpo chato que nāo me larga... mas isso… Isso é um detalhe. Podia ser um "gremlin" feio e assim, pelo menos, só pareço um e muito de vez em quando. Menos mal, porque é mais à noite e está pouca gente a ver.
Aqui a garganta irritada despede-se na esperança de voltar brevemente com cantilenas bem diferentes.
Pode ser que este corpo já me tenha deixado de chatear e que tenha virado gremlin definitivamente.
Enfim… Há-de passar.
Este fim-de-semana passou a correr sem tempo para respirar. Dias recheados e apenas no domingo tive tempo para dar um salto ao famosíssimo Mercadito da Carlota.
Para quem, como eu, perde a cabeça com fofos, tapa fraldas e o universo dos mais pequenitos… aqui vāo as minhas escolhas das marcas que se destacaram para mim pelo bom gosto. Acabei por comprar pouca coisa mas precisamente porque havia muita escolha. Entre o escolhe nāo escolhe, vou ali ver e já venho, o Olá tudo bem? Por aqui? Nós também… Entre tudo isso chegou a hora de fechar.
Fica a selecçāo das marcas que aos meus olhos se diferenciam pelo bom gosto e qualidade.
Chegou como quem diz "estavam a achar que eu nāo vinha?"
O primeiro dente chegou, finalmente.
Estávamos. Na realidade até estávamos a achar que nāo vinhas.
Apesar de nāo conhecermos bebés sem dentes. É facto que vieste tarde. Para mim entāo que já imagino e vejo dentes desde que a pequenita nasceu…
Oh dente… Tens de perceber que estava um bocado aflita. Chegaste ao ano e dezoito dias… E ainda és só o primeiro. Até tremo porque a pobrezita agora parece que vai ter os teus irmāos todos juntos, tudo ao mesmo tempo.
Oh dente, és um amor. Solitário e perdido num sorriso doce e rasgado. Já ajudas até a massacrar pedacinhos de pāo. Agora diz lá aos outros para se acalmarem para nāo aparecerem todos juntos. Isso é que pode ser um sofrimento desmedido para uma bebé tāo impecável como a minha pequena filha.
Ainda assim tinha de escrever para te dar as boas-vindas. Quanto a ser tarde… Nāo te preocupes. Nāo tem mal. Diz quem sabe que cada criança é um caso único. O resto sāo estatísticas.
Até há pequenitos a quem o primeiro dente aparece bem mais tarde ainda.
Antes tarde que nunca, já dizia quem sabe.
Fica o esquema do considerado nascimento mais comum dos dentes.
Em jeito de mimo parece que segreda como é valente e feliz.
Estamos doentes. Vamos começar por aí.
Quer dizer… Passou sexta, sábado, domingo e hoje... E aquela quinta-feira ainda nāo acabou.
Quero que seja breve, mais breve por favor.
Parte-me a alma o seu olhar derrotado.
Ainda assim, o seu sorriso... Embora farto, meio cansado, parte saturado.
É que já foi quinta mas ainda hoje nāo acabou.
O próximo passo: reconquistar o "poder fazer" e a vontade de comer.
Enfim, ninguém quer nos seus planos ver um filho adoecer.
Depois também ficaram doentes os avós. Agora nós.
Ainda assim de movimento lento e semi-empenado:
Onde está o nariz? Onde está o nariz?
Está ali. Está aqui. Está aqui. Plim.
Mal falava. Pirralha. Nariz a tocar o céu estrelado. Olhar atento. Silêncio falado. Com e sem a mania.
Fixada na caixinha mágica, nos sonhos:
- Māe, um dia hei-de ser ali.
Admirada - "vai-lhe passar".
Nāo passou.
Tentava preparar-me para a vida.
A minha māe.
Fazia de tudo para me suavizar as quedas.
Há quem prepare os filhos para o sucesso.
Há quem prepare os filhos para o insucesso.
Sāo diversas as maneiras de amar.
Importante, mesmo importante é continuar a incentivar.
Mal nāo faz, saber de ante-māo que nem sempre a vida é o que se quer.
Talvez o balanço seja perfeito entre o que tememos, o que acreditamos e o que fazemos.
Nāo deixando jamais de ser a minha base. Era o meu lugar constante e seguro.
O elo certo que me unia os pés à terra.
A este planeta. A este planeta terra.
Nāo fosse eu ser ainda capaz de inventar um outro. Um outro planeta.
Eu vi sempre o céu.
Fossem as estrelas. O sol ou a lua.
Sempre.
Precisava daquele balāo de ar quente, daquele pára-quedas que suspende no ar.
Assim foi. A minha māe.
Todas as vezes lá para nāo me desmontar sozinha a aterrar.
Houve vezes, sim, em que me parti, em que me desmontei, na aterragem.
Mesmo com pára-quedas, esta terra é dura.
Regra incurável… Encaixei sempre os pedaços.
Acompanhada ou menos… Sempre…
Pedaço a pedaço… Peça a peça. Passo a passo.
"Be water my friend" passou a ser o lema.
Aos 30, lá fui. Menina de cinco, mala numa māo e sonhos na outra. Fui.
Atirei tudo ao ar.
E lá estava a māo da minha māe. A ver-me partir, olhos fortes, coraçāo desfeito e orgulho no peito.
Insistia… 'Vai porque deves ir mas lembra-te… nāo serāo sempre rosas".
E em jeito de história da Disney, eu sabia: I Can Go The Distance. Fui.
Depois de se embarcar neste sonho. Depois de se ir já nāo se volta.
Mesmo cá, jamais se volta.
"I don't care how far, I can go the distance."
É sempre apenas um bilhete de ida mesmo quando inclui regresso.
Muda-se eternamente. Vive-se ainda mais intensamente.
Passei a tolerar mais o que sempre devia ter tolerado.
Deixei de tolerar o que nunca antes devia ter tolerado.
Sou diferente. A mesma. Diferente. Nāo outra mas diferente.
A māo da minha māe, sempre a mesma.
No mesmo aeroporto em que parti. No mesmo aeroporto quando cheguei.
Ali. Sempre ali, a minha māe.
Preparar os filhos para os sonhos. Era por isso que escrevia.
Orientar para os seus maiores e mais altos vôos.
Deixando com o destino o sucesso do amanhā ou o fracasso do depois de amanhā.
E quando digo preparar digo preparar...
Nāo é à toa que o Michael Bolton está a esforçar-se a cantar.
Está pelos muitos céus limpos, cheios de estrelas, por uma quantidade enorme de nasceres do sol bem quentes e por outros quantos pôr-do-sol a dar lugar a (pelo menos) uma lua cheia a encher.
Seja ao som de Michael Bolton de cabelos ao vento, seja ao som do maestro que conduz a orquestra pelas sinfonias do Mahler. Seja qual for a banda sonora:
Regra número um: tem de tocar bem alto
Regra número dois: tem de tocar bem fundo
Regra número três: tem de tocar e voltar a tocar
Como um balāo que se entrega ao vento e que suavemente há-de voar.
Por ti, voa minha filha, voa.
Eram 18:00. Carros por todo o lado. Já ia tarde. Queria ter ido às 17:00.
Nāo consegui.
Senti-me uma má māe.
Eram 18:30. Tudo parado. Queria ter ido às 17:00.
Nāo consegui.
Senti-me uma má māe.
Eram 19:00. Luzes encarnadas na frente. Faróis pelo retrovisor. Queria ter ido às 17:00.
Nāo consegui.
Senti-me uma má māe.
Eram 19:30. Finalmente cheguei.
O silêncio do lugar fazia notar a quietude estridente da agitaçāo anterior.
Senti-me uma māe pior ainda.
Tudo quieto. Tudo calado. Apenas o som do ar e do vento no meu cabelo a espreitar.
Ao fundo, desfocada, aproxima-se a Amália ao colo e ao som dos passos.
Um sorriso largo.
Senti-me melhor māe.
Silêncio quebrado. Amor retomado.
Tanto disse que a pequenita era minha fotocópia que agora tenho de partilhar: um fenómeno estranho apoderou-se desta casa. Parece que fui lá dentro à cozinha e quando voltei… A minha filha passou a ser fotocópia do pai. Nāo sei muito bem explicar como é que aconteceu mas era capaz de jurar que ainda agorinha era igual a mim… Eis que esta foto do Pedro nāo me permite mais apregoar à boca cheia que as duas somos iguais. Agora com alguma ginástica, tocando até o ridículo, arrisco a dizer qualquer coisa como: Cara do pai, feitio do pai, sorriso do pai, tudo do pai… mas com as cores da māe.
Pronto. Ficou qualquer coisa. As cores. Haahahahah
É que isto de nos dizerem que somos iguais aos nossos filhos traz um sentimento enorme de ternura e orgulho. Sermos feios, altos, magros ou gordos conta muito pouco na equaçāo. Vá-se lá entender porquê, esta ternura arrebatadora que se sente transborda por nós acima e faz-nos levitar. Talvez seja mais uma forma de renascermos, uma e outra vez contra o tempo, talvez. E assim encerra em si, sempre de alguma forma, uma vaidade ou egocentrismo. E eu ralando-me… Acho graça ao facto de os filhos serem iguais aos pais e/ou às māes. Acho. Que hei-de fazer eu a isso? Nada.
Até porque um dia … Num dia muito importante… descobri numa maravilhosa viagem que a minha crença na vida, a minha "fé" se assim se pode chamar, passa por aqui. No Brasil, do outro lado do oceano, de frente para as minhas tias que lá vivem, percebi todo o sentido da vida. Da minha, pelo menos. Tinha na minha frente a prova provada de que o universo é perfeito na sua organizaçāo.
Nāo há distância que separe a genética. Nāo há oceano que faça esquecer o sangue.
Hoje, acredito: envelhecemos sim, o corpo. Cedo ou tarde, deixa de funcionar.
Tinha dentro de mim tantas certezas quanto incertezas. Incertezas pelo medo que arrepia a espinha ao perguntar: serei capaz? Sou. Somos.
Passaram oito meses para todos, mas para nós passaram oito e nove = 17 meses. Um caminho que vai profundo nesta vida "a duas", nesta vida a três. Com dias bons, fantásticos, maravilhosos. Com dias menos fáceis também, ou nāo fosse este o caminho da felicidade. Caminho mais que feliz e recheado tal qual um bombom. Caixas e caixas de bombons... Quando primeiro sabemos, sozinhas, nós e a vida de frente - estou grávida! - a alma arrepanha-se como num esgar de uma gargalhada congelada, tempo parado e mundo quieto no sopro de uma respiraçāo, na incerteza do riso total, do medo ou do pânico. Um misto de tudo num só segundo. Num só frame de película. E nesse instante nada sabemos, nada de nada.
Cada dia que se acrescenta ao anterior, ganha novas palavras no dicionário.
Até hoje. As palavras acrescentam-se. As páginas avolumam-se. Os momentos vivem-se.
Nāo sabíamos nada. Continuamos a saber pouco mas o suficiente para amar cada pedaço teu no gesto inquieto de todas as manhās. Seja tempo de Outono, Primavera, Inverno ou Verāo. Cada amanhecer ganhou o brilho enorme de te ver entardecer. Hoje, amanhā… Todos os dias… Agora...
Todos os dias nāo quero morrer. Nunca. Só para te ver crescer.
Depois de uma tarde fantástica a fotografar para a Caras com a pequenita Amália, o regresso a casa é um regresso cansado mas agradável. Foram horas na companhia de profissionais exemplares. O que poderia ter sido difícil foi absolutamente calmo, simpático e amável. Fotografar assim foi para mim uma prova ainda maior de que a Caras é uma revista com uma sensibilidade única e com profissionais excepcionais. O respeito e o profissionalismo fazem com que, hoje e sempre, a Caras tenha todo o meu carinho e admiraçāo. Acompanharam-me nos momentos mais importantes da minha vida e sāo sempre, sem excepçāo, atenciosamente cuidadosos com o trabalho que abraçam e com quem fotografam.
Obrigada a todos os que hoje fizeram da nossa tarde uma tarde bem passada.
Vāo juntos para todo o lado. Estāo agarrados em todo o lado. Ela adora-o de coraçāo. De māo dada em todos os lugares nāo há espaço para respirar sem o Pinky. Acalma quando o espalma. Na verdade ela apenas adormece em sossego abraçada a ele.
O detalhe é que o Pinky por vezes tem de ir a banhos. Cada vez que o banho acontece é difícil de contornar... Pois o Pinky como urso de peluche que é demora tempo a secar...
O que tem de ser tem muita força e... Urgentemente preciso é de ir comprar um Pinky gémeo. Na esperança de que a pequenita nāo dê pela diferença e os banhos do Pinky nāo se transformem em horas de choro por falta do seu grande amor.
Antes centrada apenas no meu. Agora mais que no nosso: no teu, meu amor. No teu.
Receio que este seja o país que te vê crescer. Um lugar maravilhoso mas sem presente, sem futuro. À espera que o tempo se acrescente.
Receio por ver todos os que se desdobram em qualidades e talentos e que, ainda assim, este está longe de ser o lugar ideal para se crescer.
O mundo nāo é fácil. Claro. E amar Portugal inquestionavelmente também nāo é suficiente.
Que lugar é este que amo mas onde quase nunca o rigor acontece e a seriedade é brincadeira?
Que lugar é este que amo mas onde o bom e o melhor é incentivado a partir, a nāo voltar ou mesmo a acabar?
Que lugar é este que amo mas sem visāo, óculos ou binóculos se desculpa atrás de desculpas e se vai escapando entre furos e buracos?
Que lugar é este que amo mas onde pessoas atrás de pessoas esperam que algo aconteça, mude ou se transforme sem deixarem nada mudar, melhorar ou ser diferente.
Que lugar é este, que amor?
Para tantos viver em Portugal passou a ser como viver vitima de bullying, maus tratos ou violência psicológica.
Que lugar é este que se transformou no esmagamento de sonhos em massa, de futuros em particular e de vidas em privado?
Que lugar é este que prevê tudo e erra sempre a estimativa ao lado?
Que lugar é este que cospe e deita fora o que é bom em prol do que é mau ou está errado?
Que lugar é este, amor?
É o lugar que nos viu nascer e temo profundamente que este nāo seja lugar para te ver crescer.
Quem nāo vê isto é porque certamente nāo tem vivido e sentido este lugar, meu amor.
Desculpa se hoje o que digo nāo é feliz mas nāo se consegue ser sempre.
Tentamos "congelar" com um registo as memórias do que vivemos. Na vontade de um dia quando cresceres nos leres e te veres. Como foi, como era, como é agora.
Hoje este post é especial. Neste dia familiar de domingo repleto de brincadeiras... Escrevemos para longe.
Lá longe, sabemos que a bisavó Mimi nos lê todos os dias. A bisa Mimi está longe mas perto do coraçāo. Por isso hoje vamos aumentar a letra dos posts para ser mais fácil a leitura e a impressāo.
Como a bisa Mimi também temos muita famīlia do coraçāo a viver longe. Seja em Portugal, seja no estrangeiro. Por isso mesmo, este blogue para além de ser dedicado a todos os pais em "início de carreira" é também um blogue para comunicar e partilhar com a nossa família que está mais distante.
Assim ficam e continuam perto de nós. No coraçāo. Todos no coraçāo.
Aqui escreve-se e documenta-se amor. Documenta-se simplicidade e vida. A simplicidade dos dias acompanhados pelo crescimento, por todas as etapas do crescimento de uma criança.
A nossa.
Somos orgulhosamente uma família unida. Nós e quem nos lê.
Obrigada bisa Mimi. Obrigada toda a família e a si que também nos lê.
Sabemos que os nossos filhos crescem. Nāo é grande novidade, nāo.
Mas apenas percebemos que os nossos filhos efectivamente crescem e vertiginosamente... quando acabámos de ser māes e já estamos a empacotar coisas para guardar.
As primeiras roupas : já nāo servem. Nem mesmo nas orelhas...
Bem como os primeiros biberons, o berço, a alcofa, todos os kits de amamentaçāo, a espreguiçadeira... Enfim... Um montāo de coisas que agora têm de sair de cena e dar lugar a outro montāo de coisas.
É tempo da nova cama de grades, do mágico parque, dos brinquedos coloridos cheios de sons repetitivos e da cadeirinha para comer... Os tempos do ovo também começam a chegar ao fim. Mas ainda vai dando...
Mais que tudo: agora é tempo de abraçar a nova fase.
As cambalhotas, o arrastar, o gatinhar, ou pelo menos tentar gatinhar...
É de rir vê-la a perder o norte e o sul a dormir. O acordar com os pés aqui e a cabeça acolá.
Faz tudo parte.
As voltas e as reviravoltas.
Todas as coisas dāo o seu lugar a outras. A novas outras.
Tudo o que havia de mais difícil passou. Fica o que é para sempre. O que valerá sempre a pena lembrar. Para trás as cólicas que nos violentaram os dias e as noites. Que me revoltaram com a tua dor, a tua agonia. Que me fizeram desesperar, falar sozinha, irritar com o mundo. Para trás. Esquecido. Bem como os medos de uma vida de pânico sem me organizar. Para trás. Passou. Lá ficou. Longe também ficaram os tabus que as māes escondem, nāo dizem... O quāo difícil é, o quanto assusta, o quanto custa... Nunca escondi. Mas para trás. Lá ficou. Passou. Valeu tudo. Vale tudo.
Rotina instalada. Vida organizada. Prova superada. Agora: viver.
A nossa vida. Juntas.
Toma. A minha é tua. Ofereço-ta. Ficas com o que quiseres de mim. Uma parte. Todas as partes. É assim. Ser māe é ser com os filhos todas as partes. Inteira.
És agora a calma que eternamente me faltou.
O sorriso desconcertante que arrebata corações...
Da mercearia ao café, do banco ao talho, da portagem à oficina, do restaurante à gelataria, de casa ao infinito.
Distribuis os sorrisos que a tua māe tantas vezes guardou.
Passo a passo. Um a um.
Falas mais que oradores.
Tens mais sentido que orientadores.
Comunicas mais que muitos comunicadores.
Observas mais que o mais atento dos observadores.
Agora vamos conhecendo que mais o mundo te reservou.
Hoje quando viu pela segunda vez na vida A tigela branca com uma 'coisa' laranja estridente lá dentro foi ...
Game over. The end. Acabou.
'Mas que mãe és tu?!?!' Lia-se por trás das suas lágrimas gordas e desesperadas. Desesperada por uma sopa de cenoura sem sal. A sua segunda sopa.
Que será de mim depois... À terceira, à quarta, à quinta...?
Ontem correu bem. Temia o pior e correu bem. Comeu tudo. Deve ter achado que era mesmo necessário por alguma razão muito forte. Estranhou mas comeu... Ou melhor, foi comendo. Baralhada entre o sabor e a estranheza de uma colher pela primeira vez na boca.
A cozinha preparada para a guerra... Nós tapados até ao pescoço e todas as máquinas fotográficas e de filmar a postos. Um aparato. Nada aconteceu. Tudo tranquilo. Restou a expressão de enfado e pouco mais.
O cenário de guerra ... Aconteceu hoje...
Bastou ver o mesmo tom de branco e laranja dA tigela. A tigela. Igual à de ontem. Socorro. Chamem a polícia. Alguém. A minha mãe perdeu de vez o tino.
Ligou a sirene. Os vizinhos só podem de facto ter chamado a polícia... Tal era o alarido aqui em casa.
A tigela... Socorro! A tigela... Sr. Guarda...
Perdi a batalha. Espero não ter perdido a guerra.
Ao fim de 45 minutos, 50 litros de lágrimas e ainda meia sopa por comer... Desisti... Tal era o nosso estado.
Ela perdida de desespero sem a polícia chegar. Eu sem saber mais o que fazer para a relaxar.