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segunda-feira, 23 de março de 2015

O Lado Melhor Da Vida



- Tá?! Tá?!
Todos os objectos passaram a poder ser um telefone. Estamos na fase da aprendizagem da linguagem. A imitaçāo. O som. O reproduzir o que ouve. Tentar. 
Começou a tentar. Um telefone toca, ou nem precisa, e de olhar fixo e concentrado olha-me. No seu tempo certo, no dela, no tempo que entende diz: Tá? Tá? Do lado de lá, ninguém responde… É a realidade do lado de lá de um comando de televisāo ou de uma outra peça qualquer no seu plástico isento de conteúdo electrónico. 
Já se percebe também o quanto a personalidade vai ganhando forma. O processo é demais. Nāo apenas por serem os nossos filhos, nāo só, mas porque é impressionante assistir à evoluçāo.  Passou um ano apenas. Sem ainda um domínio mínimo da fala, comunicamos tudo. Entendemos quase tudo. Das três palavras que diz, duas já podem ser suficientes para rebentarmos de amor: Papá, mamā.    
Papá que era Dada, passou rápido a ser papá. Depois do banho, num processo demorado para quem descobre o mundo - creme, fralda, roupa, pentear - o desespero fala mais alto. Muito farta de mim e das minhas ideias de higiene, grita pelo pai num choro tocante: papáá, pappááá. Vezes sem conta. Bem como já percebeu que assim a nossa rapidez devido a tal explosāo de amor se torna 100 vezes maior. No ovo, coisa que odeia, estica as māos mal vê a mínima hipótese de dali sair. Estes sāo exemplos simples entre mil. Aponta para tudo o que quer, para tudo o que lhe desperta interesse. Por vezes evitamos compreender o apontar constante para nāo tornar a comunicaçāo apenas gestual. Temos esta ideia de que há que incentivar a fala. 
Dos dentes… Nada. Apenas altos e baixos ao longo das gengivas inteiras.  Habitualmente aparecem à vez… Com ela nāo me parece. Vêm todos aí. Todos ao mesmo tempo. 
Em fase de experiências, coisas novas, fomos à praia. Nāo pela primeira vez mas fomos experimentar pela primeira vez a areia. Dizem que habitualmente estranham, nāo gostam. Pois nāo pareceu. Adorou. Adivinha-se um verāo alegre de construções de areia a tocar o céu. 
Foi bom. Tem sido bom. O lado melhor da vida. 






terça-feira, 4 de novembro de 2014

Grande, Ainda Que Pequenina


Somos grandes mesmo pequeninos. 
De todas as vezes que chega a hora de comer, instalam-se uns guinchos repentinos. Até salto de susto. Se por uma ou outra vez nāo percebi... Hoje passei a perceber. 
O que estava mal era simples. 
Explico:
Mesmo pequeninos, muito pequeninos, já têm querer. Ainda com pouco mais de sete meses a Amália começou a agarrar o biberon sozinha e a querer beber ao ritmo dela. Sem mim. Sem ninguém. Ao ritmo dela, à maneira dela. 
Pois hoje durante a papa, já em desespero, gritava, guinchava irritada comigo e nāo parava. Eu nāo entendia. 
Ela comia umas colheres de papa e gritava de novo. As lágrimas gordas rolavam pela insatisfaçāo, pela minha insistência. Finalmente fartou-se e explicou-me. Agarrou na minha māo com toda a força do mundo, mudou a rota da colher à sua maneira e puf até à boca. Ainda gargalhou. 
Colher atrás de colher, já nāo foi possível dar-lhe a papa como antes. Ri também. Tal como diz o ditado, se nāo os podes vencer junta-te a eles... Assim foi... 
Papa pelas māos, bochechas, olhos, papa por todo o lado. Mas gargalhadas felizes de uma conquista inédita: acertar sozinha com a colher na boca e morder morder morder. De vez em quando comer, comer, comer... Mas nem sempre. 
As vezes suficientes para nāo parar de rir. Ela e eu, claro.
Por este andar, lá para os 12 meses vai às compras sozinha. Só espero que nāo saia de casa sem lista. 
Pequenina mas grande, esta pequenita.     

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Umas Coisas Dāo Lugar A Outras

Aos Dois Meses e aos Seis Meses


Sabemos que os nossos filhos crescem. Nāo é grande novidade, nāo. 
Mas apenas percebemos que os nossos filhos efectivamente crescem e vertiginosamente... quando acabámos de ser māes e já estamos a empacotar coisas para guardar. 

As primeiras roupas : já nāo servem. Nem mesmo nas orelhas... 
Bem como os primeiros biberons, o berço, a alcofa, todos os kits de amamentaçāo, a espreguiçadeira... Enfim... Um montāo de coisas que agora têm de sair de cena e dar lugar a outro montāo de coisas.

É tempo da nova cama de grades, do mágico parque, dos brinquedos coloridos cheios de sons repetitivos e da cadeirinha para comer...  Os tempos do ovo também começam a chegar ao fim. Mas ainda vai dando... 

Mais que tudo: agora é tempo de abraçar a nova fase. 
As cambalhotas, o arrastar, o gatinhar, ou pelo menos tentar gatinhar... 
É de rir vê-la a perder o norte e o sul a dormir. O acordar com os pés aqui e a cabeça acolá. 
Faz tudo parte.

As voltas e as reviravoltas. 

Todas as coisas dāo o seu lugar a outras. A novas outras.
E nāo é assim em quase tudo?




domingo, 24 de agosto de 2014

O Regresso A Casa





Tudo acaba. Também as férias. 
Foram as primeiras. Verāo 2014. Cinco meses e meio. 
À sombra na tenda de praia. Sem pé na areia. Sem pé na água. 
Ao colo a ver o mar. A conhecer o mar. Foi bom.
Passeios. Diversāo. Muita companhia. 
Do Alentejo ao Algarve. Desde amigos a família. 
Da calma à agitaçāo. Do sono à diversāo.
Acabou por agora.

Foi o regresso a casa.

Sabe bem voltar. Descansar na nossa cama. 
Devolver-te ao conforto do ambiente que conheces. As férias deixam saudades pela agitaçāo, pela companhia, pelas novidades, pela azáfama. 
Agora vamos descansar das férias. 

Parece tonto mas os sonos agitaram-se, alteraram-se. É a euforia da novidade constante. O mundo para conhecer.
Nāo falas mas comunicas. O teu sorriso de hoje quando acordaste no teu berço, no teu quarto, disse-nos que é bom regressar a casa. 

Já dás pelo teu nome. Já conheces a tua casa. 
Quando ontem te mudei a fralda assim que regressámos fiquei boquiaberta. 
Cresceste. Cresceste tanto. 
Os teus pézitos já ficam de fora do muda fraldas. 
Quando fomos ainda nem rebolavas.
Hoje rebolas e voltas a rebolar. Viras-te para todo o lado que queiras.
Umas semanas nesta idade e a diferença é abismal. 

O que nunca muda é a tua simpatia. A tua paciência. Os teus sorrisos. 
A vida é uma festa. Fico feliz só de partilhar esta festa constante contigo. 
Seja aqui ou lá. Onde for. Onde fores. 
A festa é tua. É nossa. 
Tua. Do pai. Minha. Dos avós. De quem connosco a partilha.
Tem sido assim.
A nossa vida. 
Uma festa.  



quarta-feira, 23 de julho de 2014

Entretanto Vivemos



Estes dias tenho viajado pelo sorriso da minha filha, o amor do e pelo pai dela, a nostalgia de Londres, dos filmes, dos sonhos, dos amigos que lá deixei, dos festivais de cinema, da emigraçāo, da distância... Mas acima de tudo tenho viajado pela idade avançada das minhas avós e o contraste gritante da velhice com a infância. 

Agora que é tudo tāo mais intenso e sensível. O perfeito tornou-se perfeitíssimo. O triste passou a trágico. Disse, digo e escrevo vezes repetidas que tenho vivido muito e sempre intensamente.  Agora ainda mais. 
Ver um filho crescer torna-se no maior e mais completo plano de vida de sempre. A par disto crescem connosco alguns medos e a tristeza amputada de algumas inevitabilidades. 
Os contrastes fazem-se ainda maiores. Percebemos que a vida começa e termina quase no mesmo sítio. Entretanto vivemos. 

Entretanto vivemos. 

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Até Hoje A Minha Filha Gostava De Mim...




Sim... Até hoje...
Ontem foi-me dado o benefício da dúvida.
Hoje foi o dia da revolta. Total.
Amanhã pode ser para esquecer...

Hoje quando viu pela segunda vez na vida A tigela branca com uma 'coisa' laranja estridente lá dentro foi ... 
Game over. The end. Acabou. 
'Mas que mãe és tu?!?!' Lia-se por trás das suas lágrimas gordas e desesperadas. Desesperada por uma sopa de cenoura sem sal. A sua segunda sopa. 
Que será de mim depois... À terceira, à quarta, à quinta...? 

Ontem correu bem. Temia o pior e correu bem. Comeu tudo. Deve ter achado que era mesmo necessário por alguma razão muito forte. Estranhou mas comeu... Ou melhor, foi comendo. Baralhada entre o sabor e a estranheza de uma colher pela primeira vez na boca. 
A cozinha preparada para a guerra... Nós  tapados até ao pescoço e todas as máquinas fotográficas e de filmar a postos. Um aparato. Nada aconteceu. Tudo tranquilo. Restou a expressão de enfado e pouco mais.
O cenário de guerra ... Aconteceu hoje...
Bastou ver o mesmo tom de branco e laranja dA tigela. A tigela. Igual à de ontem. Socorro. Chamem a polícia. Alguém. A minha mãe perdeu de vez o tino. 
Ligou a sirene. Os vizinhos só podem de facto ter chamado a polícia... Tal era o alarido aqui em casa. 
A tigela... Socorro! A tigela... Sr. Guarda...

Perdi a batalha. Espero não ter perdido a guerra. 
Ao fim de 45 minutos, 50 litros de lágrimas e ainda meia sopa por comer... Desisti... Tal era o nosso estado. 

Ela perdida de desespero sem a polícia chegar. Eu sem saber mais o que fazer para a relaxar. 

A tigela vai voltar, sr. guarda... Vai voltar.



terça-feira, 24 de junho de 2014

94 Anos


Hoje faz 94 anos a minha querida avó. Tenho sorte. Fui neta de 3 avós. Sim... 3. Uma história linda que agora nāo vou contar. Duas continuam a partilhar connosco os dias, a vida. 

Hoje faz 94 anos a minha querida avó. A vovó Fernanda foi sempre como o doce mais açucarado e mais belo da pastelaria. Um doce. A alegria. A simpatia. Uma beleza. 
O seu rosto iluminava-se sempre que me via pela porta. 
Mesmo doente, ainda hoje tenho a sorte de merecer o seu sorriso rasgado cada vez que apareço. 
Na porta. Pela porta. O sorriso.
Apareço pouco, menos do que gostaria. Sempre que possível. 
A vida baralha-nos o tempo. É difícil. A doença troca-nos as voltas e magoa. 
Somos uma família com sorte. Têm sido 94 anos de beleza. 
A dor tem começado a crescer como crescer tem custado a doer. 
É a doença. Levou-lhe a memória. Levou a minha vovó Fernanda como me lembro. Há anos. 
Faço de tudo para que a sua ausência de memória nāo faça esquecer a minha. 
Guardo-a como a conheço: um doce... O melhor da pastelaria. 

Os seus cabelos brancos lembram sempre as histórias de ir dormir, os vestidos cosidos à māo e os  bordados tāo perfeitamente trabalhados. É maravilhosa a minha avó. 

Hoje, longe da memória de outros tempos agarra ainda assim na māo da minha filha como se fosse a minha. Sim, como se fosse a minha. A māo.
Olha-a nos olhos, tenta segurá-la todo o tempo. Ama-a instintivamente ao colo. 
Diz-lhe: Ana Rita, Ana Rita. 
-Avó... Minha avó... É  a minha filha, chama-se Amália. 
Os segundos passam e diz: Catarina, Catarina... 
Repete sucessivamente o nome das suas netas. 
Eu repito: Avó, a minha avó...
Levaram parte da minha avó...
Tāo distante e tāo perto. 
O amor e a ternura com que olha a Amália fazem valer a vida que tantas vezes já nāo tem. 
Pode baralhar, confundir, nāo lembrar... Mas será sempre a mais-perfeita-avó. 

Amália... Gostava tanto que um dia recordasses como eu a tua bisavó.
A minha querida avó que a memória levou. 
Mais que os parabéns, avó, quero muito dizer-te que o amor ficou. A memória assim decidiu e deixou. 


terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

... Mas Tu Fizeste De Mim Māe


Imagem e Video de: boba.com




"Senti-te.
Eras uma ervilha. Depois um limāo. E uma planta. 
Segui conselhos. 
Li doze livros. 
Desisti de beber café. 
Percebeste que estava com medo?
Falei para ti, cantei para ti. 
Nāo estava pronta...
Mas depois estavas aqui. 
Dez dedos. 
3 Kilos. 
Amor. Amor grande, amor gigante. 
Segurei-te ao colo. 
Dei-te de comer. 
Percebi que ia passar toda a minha vida a fazer coisas para seres feliz. 
E que isso me fazia a mim feliz. 

Depois... As vezes todas em que quis desistir. 
Fizeste-me repensar a minha sanidade mental. 
Fizeste-me querer cair aos pés da minha māe e dizer-lhe: eu entendo. 

E entāo, tu sorriste. 
Disseste o meu nome. 
Pegaste na minha māo com esses pequenos dedos. 
Estamos a crescer. 
Juntas. 
Estamos a ver o mundo como se fosse novo. 

Vou abrir o meu coraçāo e o amor vai chover em ti. 
E eu farei tudo de novo. 
E lá vamos nós caminhar.
De māos dadas... Até que tu deixes ir... 

Eu fiz-te... mas tu fizeste de mim Māe." 





quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Estamos Grandes


Temo que um destes dias chegues aos sítios umas quantas horas antes de mim... É que ainda falta mas cresces, cresces, cresces, cresces e cresces. A nossa barriga não sei onde vai parar. 

Ainda bem, continua a crescer meu amor. É sinal que estás bem.