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segunda-feira, 31 de março de 2014

O Bater Do Coraçāo



Finalmente descobri a melhor forma de dar atençāo à Amália mas continuar a ter mobilidade. Ofereceram-me o baby sling ideal da marca minimonkey. Tenho andado em versāo kit "māos livres" pela casa e nāo quero outra coisa. Tal como os cangurus ou os macaquinhos cá andamos nós. E assim vai ser para ir ao café da esquina, à farmácia ou comer um gelado. A Amália adormece 3 segundos depois de aqui entrar. Fica protegida, ouve o bater do meu coraçāo, acalma e é como se estivesse de novo na minha barriga. Eu assim consigo fazer tudo sem esforço e com as duas māos livres. Melhor do que quando a tinha dentro da barriga e já mal me baixava.

Sāo imensos os baby slings que existem por aí. No entanto é preciso ter em conta vários factores que nem sempre nos lembramos por achar que basta escolher o mais bonito e que depois em termos de funçāo e qualidade é tudo igual. Mas nāo é! Um bom baby sling é confortável para o bebé e para a māe tendo de ser regulável em altura para se ajustar ao passar do tempo, ao peso e até à fisionomia da māe. Bem como deve ser almofadado nas bordas para nāo vincar, em nenhuma das posições possíveis, o nosso bebé e assim evitar magoar a tenra pele. Também tem de ser seguro e deve ter sido convenientemente testado. Adoro a facilidade com que um pedaço de pano brilhantemente pensado e trabalhado me facilita a vida para aqui e para ali. Estou profundamente feliz com este presente. 

Obrigada Célia.

Farei toda a publicidade do mundo sem me ter sido pedido porque é, de facto, uma maravilha o conforto que este baby sling proporciona em comparaçāo com os outros. 

Fica a referência aqui em baixo no site da marca para os interessados. 
Podem comprar na Kuantos Meses em Algés. 
Eu amo.    

https://www.minimonkey.com/productinfo/baby-sling-4-in-1

Kuantos Meses/ localizaçāo 

sexta-feira, 28 de março de 2014

Boas Notícias

Dia 07.03.2014 - recolha células estaminais no parto

Mesmo na fase final do parto a equipa médica procedeu à recolha das células estaminais do sangue e do tecido do cordāo umbilical. O processo é complexo, passa por diversas fases. E por isso mesmo, apenas hoje tive a confirmaçāo de que todo o processo tinha corrido de forma positiva e com sucesso. Estamos felizes com a nossa escolha e com a nossa confiança na Cytothera. Pois é comum e natural acontecer que na recolha algo possa impedir a criopreservaçāo por contaminaçāo, seja durante ou anteriormente ao parto. Felizmente connosco tudo correu pelo melhor. Após avaliaçāo apropriada já em laboratório sabemos agora que todo o processo correu bem e com sucesso. Existem 3 fases: a recolha, o processo e criopreservar. Missāo cumprida. Todos nós fizemos a nossa funçāo com distinçāo. 

Resta-me agradecer à Cytothera e à MAC por todo o processo. 
Quanto às células... Queremos, desejamos e rezamos para que fiquem apenas guardadas o tempo todo e que delas nunca precisemos ... Para nada. É muito bom saber que temos a segurança de as ter ... Mas, como todos os pais no mundo, queremos que nunca, mesmo nunca, precisemos delas pois significa que a pequena Amália está e estará sempre de perfeita saúde.



quinta-feira, 27 de março de 2014

Onde Estás Tu, Natureza?



Nāo é fácil... Nāo tem sido fácil...

Só digo a verdade. E nāo... Nāo é fácil... 
Estou capaz de esganar quem me diga ou repita mais alguma vez que "cólicas é normal" "faz parte" "é mesmo assim" "depois passa"...

Ou eu sou doida ou há alguma coisa aqui que nāo me faz muito sentido. Quer dizer... A natureza faz um trabalho exemplar de 9 meses a gerar na perfeiçāo bebés encantadores que deixam māes e pais boquiabertos pelo milagre que é todo o processo... E querem que esses mesmos pais ouçam tranquilamente que é "normal" "natural" "muito comum" esses mesmos filhos chorarem desesperadamente com dor, sim, com dor, com desespero, com toda a força que conhecem... Porque o intestino dos seus recém-nascidos ainda nāo está preparado para o leite e precisa de habituaçāo... Sāo "apenas" os primeiros meses de vida... "Faz parte"... Seria o mesmo que dizer: cada vez que abre os olhos dói porque ainda se estāo a habituar. Ou: Cada vez que respira dói porque os pulmões nāo estāo habituados a respirar...  Mas é só o intestino que tem de se habituar?  

Onde estás tu natureza nesta altura? Nestes "apenas" primeiros meses de vida...
Quero parar o choro desesperado da minha filha. Quero arrancar-lhe a dor dos gritos de sofrimento. E onde estás tu natureza? 
Sim, ela é calma, tranquila, um anjo na terra. Mas agora, constantemente sofre com as famosas "cólicas", dores horríveis que lhe retiram a tranquilidade que a caracteriza. E onde estás tu, natureza?
Queres que aceite que sabes colocar dentro de mim um feijāo que se torna num dos mais maravilhosos seres do planeta, que até se vira para a posiçāo certa antes de nascer porque assim tem de ser... E tu, natureza, queres que ache normal que em todo esse processo te esqueceste de um detalhe: os bebés e os seus intestinos têm de funcionar! 
Nāo posso aceitar. 

Lamento, mas essa resposta nāo me serve.   
Nāo, nāo é normal. Nāo, nāo pode ser normal um bebé torcer-se com dores desta maneira. Porquê? Porque nāo é apenas o meu bebé... É um planeta de bebés que se torce com dores e chora meses a fio porque tem dores de barriga...  

Natureza, lamento dizer, mas era fundamental corrigires este erro o quanto antes pois parece impossível entre tamanha perfeiçāo teres deixado passar, e assim continuar, estas dolorosas experiências para pais e bebés...
Hoje estou revoltada contigo, desculpa natureza, mas deixa-me dorida esta dor que lhe vejo e sinto todos os dias a tantas horas...


segunda-feira, 24 de março de 2014

Māe Da Amália


Eram 19h ontem quando o Pedro me disse muito sério:

"- Tens de sair um bocadinho de casa. Vai. Tens de ir senāo ficas doida. Vai. Sai um bocadinho. Vai."

Simplesmente fui posta fora de casa para ir passear um bocadinho sozinha. 

Pela primeira vez na rua depois de ter sido māe e longe da minha pequenita Amália... Senti-me estranha. A primeira sensaçāo foi de peso na consciência. Como se fosse errado deixar a minha filha por pouco tempo que fosse. 
E nem de propósito, mal coloquei o pé na rua, encontrei várias pessoas. A primeira foi a querida Madalena, que mal me viu ao longe, me perguntou curiosa e simpática: 
- Oh Ana, nāo acabaste de ser māe? 
- Sim, acabei. Faz agora meia-hora. - disse eu em jeito de brincadeira. 
Mas senti um peso. O peso na consciência. 
A Madalena continuou:
- E onde é que ela está? 
Lá se acentuou outra vez ... O peso...
- Está em casa. Acabou de mamar. Tenho de me despachar para voltar para casa antes que volte a ser hora. 
E senti-me a justificar. 

Uma tolice. Mas senti um peso. O peso.

Dei mais três passos... Parece comédia, mas nāo é... E pumba... Tufas... Mais um encontro.
Encontrei a amiga Sílvia que nāo via desde um espectáculo, uma peça. (A Sílvia é a diversāo em pessoa, uma graça. Tenho saudades da Sílvia.) E ouvi: 
"- Ana... Oláááá... Nāo foste māe agora?" 
Meu Deus... Parece que o universo se uniu para me pôr à prova... Como se todas estas perguntas me levassem para o mundo do: "Mas que raio estás tu aqui a fazer com uma bebé de 15 dias em casa??!!!" Encontros inofensivos com pessoas de quem gosto mas a sentir um peso, um peso... 
Muito peso. Senti como se fosse um crime eu estar na rua longe da Amália.

Dois dedos de conversa rápida com a amiga Sílvia sobre a maravilhosa Amália mas adiantando e explicando que tinha mesmo de me apressar. Nāo podia ficar.
Lá fui sem dar para matar as saudades que tenho da Sílvia e das nossas gargalhadas e dos seus trocadilhos. 

Pouco depois, já na fila do supermercado, com um carrinho de compras pouco cheio para nāo me demorar, contava os minutos para voltar para casa a correr. Pensava nas coisas mais estapafúrdias como: Se fico presa nalgum lado, tipo elevador? Se me acontece alguma coisa, como é que a Amália come? Ela depende de mim!!! ... Enfim... Por aí fora. Coisas tolas mesmo, até em tremores de terra pensei... Enfim, seja o que for que acontecesse haveria milhares de formas de resolver, certamente ignorando o exagero do pensamento trágico. A verdade é que me passaram centenas de ideias, mesmo muito tolas, pela cabeça enquanto a senhora da frente colocava os alimentos no tapete da caixa. E eis que reparo que a senhora me começou a fixar muito. Olhava para mim, voltava a olhar... E olhava, voltava a olhar... E eu no mundo dos tsunamis... A senhora olhava, olhava, olhava... Até que ganhou coragem e disse:
- Desculpe incomodar mas nāo foi māe? Nāo é a māe da Amália?
Ahahhhaahhahaha. 
Soltei uma gargalhada. Nāo aguentei. 
Morri. Também esta senhora para me confrontar com o meu peso...

A cliente continuou de sorriso nos lábios e disse-me alegremente:
- É que vi na revista que a sua menina se chama Amália e que já nasceu.
  
Morta de ternura pela situaçāo, ri-me com a senhora porque nāo só era mais uma pessoa a pôr-me à prova como, e acima de tudo, me matou com a pergunta "Nāo é a māe da Amália?" 
Respondi cheia de orgulho:
- Sou sim: A māe da Amália... E estou a contar os minutos para voltar para casa porque me faz confusāo ver o tempo a passar e ela quase a precisar de comer.

Respondeu-me prontamente: 
- Tenha calma, eles aguentam sem nós. Mais facilmente que nós sem eles.

E lá se despediu, pagando a sua conta e desejando tudo de bom para nós... 

Agradeço mesmo. Mas o que agradeço mais ainda é eu ter passado a ser: A māe da Amália. 
Derreteu-me o coraçāo. Garanto. 
Valeu a pena esta visita ao supermercado. Uma ternura.
Voltei para casa num abrir e fechar de olhos. 

Uma aventura estes pequenos momentos sem o Pedro e a pequena Amália... 
Parece-me óbvio que preciso aprender a lidar com tanta novidade.  

Assinado: A māe da Amália

sábado, 22 de março de 2014

sexta-feira, 21 de março de 2014

Desespero De Nāo Saber O Quê


Hoje foi difícil. 
O choro entranha-se na alma e grita-nos de desespero.
Costuma ser calma, serena, tranquila...
Hoje nāo. 
Uma noite de agitaçāo, inquietaçāo total, choro desalmado. 

Aprendi o verdadeiro significado do "nāo saber o que fazer". 
Segui todas as listas de razões para o choro desalmado. 
Lista acima, lista abaixo. 
Nada. Qual o resultado?

Choro desalmado. De quem nāo tem consolo. 
Aconteça o que acontecer. Faça-se o que se fizer. 
Fizemos tudo. Todos os truques. Todos os malabarismos. 

Ficámos nós inconsoláveis. De tristeza gigante que se apodera de nós com provas da nossa incompetência no momento. 

Foram horas. Horas a tentar acalmar lágrimas sentidas. As dela. 
Depois as minhas. 

Nāo chorei de cansaço. Chorei por nāo saber mais como ajudar, o que fazer, como fazer. 
Diz-se nos livros que todos os pais experimentam desta angústia. 

Ofereçam-me cansaço. Ofereçam-me noites sem dormir. Ofereçam-me tudo. Aguento tudo.
Mas por favor vamos evitar esta angústia do choro desesperado sem luzes da razāo. 

Deita-me por terra tudo aquilo que nāo entendo. Sempre deitou.
Mais que tudo com lágrimas gritadas sentidas indefesas aos 14 dias. 
Estamos cá para defender. 
Estamos.
Mas de quê? Tenho sempre de saber de quê...  

Passadas horas, listas corridas de ponta a ponta. Estratégias repetidas.
Dormiu. Serena. Como sempre. Como sempre.

E foi o quê? Foi de quê?
Nāo sabemos. Nāo sei. 

Mas passei a conhecer o maior dos desesperos de nāo saber o quê. 
E foi o quê? E foi o quê?



quarta-feira, 19 de março de 2014

19 Março 2014


Feliz primeiro dia do pai...

A Amália ainda não escreve. Mas certamente já sente. Já te sente, pai.
Ao longo destes dias tenho recebido mensagens, lido histórias e ouvido relatos. Sobre? Sobre os pais. Em geral a ausência de pais. 

Nem todas as mulheres têm a nossa sorte. E por isso... Eu e a Amália, hoje escrevemos para te agradecer, Pedro. Para te agradecer o pai que és. 

Pode parecer-te banal, pois és assim genuinamente... Mas quantos são os pais que, como tu, dão a mão à mãe sempre que ela precisa? Que carregam ao colo o choro desalmado de dias? Que se multiplicam por 3 e 4 para correr entre farmácias, mercearias, supermercados e padarias? Ou que mudam fraldas como se fosse ciência exacta, e que apredem a cozinhar nestes tempos cansados, ou mesmo que acordam de noite como molas ao som do mais leve esgar? 

Quantos sāo os pais assim? 

Poucos. Muito poucos. 
Mas tu és, Pedro.
És tudo isto e mais e mais e mais.

Por isso, eu e a Amália agradecemos. Pai e Pedro, sempre aqui ao nosso lado.
Feliz dia. Felizes dias, do pai e de tudo. 
Porque assim mereces. 

terça-feira, 18 de março de 2014

O Mundo No Teu Lugar


O cansaço é imenso. Muito. 
Temos sorte. A maior das sortes.
O teu sossego é constante. O choro raro. 
A inquietaçāo nem tanto... Mas a nossa. A nossa.

Somos pais. Sāo mais as vezes em que esse pensamento nos assalta de medo que as vezes que te ouvimos o choro. És um anjo. Ensinas-nos a calma do tempo e dos lugares. Olhar-te é como absorver o oceano. O oceano cristalino num fim de tarde de verāo. Enquanto o sol se põe, a brisa fresca vem do mar e sopra nos cabelos soltos. Ainda se sente o calor na praia. 
É assim Olhar-te.

Olhar-te é nāo existir o cansaço do corpo ou da alma. É esquecer o mundo. É viver de novo e outra vez, sempre de todas as vezes, momentos sem igual. Esta vez, e sempre, como a primeira. 

Olhar-te.  
O azul dos olhos pode ir ou ficar. 
Seja que cor ficar: 

Olhar-te é ver em ti o mar inteiro. O mundo no teu lugar. 

domingo, 16 de março de 2014

Que Perfeito Coraçāo



video

Na magia daquela madrugada de 07 de Março nāo percebi na altura o que acabei de perceber agora. Uma coincidência tocante.

Através de um dos muitos videos que fizemos a caminho da maternidade. 
Hoje partilho este video e a magia que me toca. 
Dentro do carro a caminho da maternidade, momentos antes do parto, o Pedro filmava. Entre risos, gargalhadas e contracções lá íamos andando. Nas imagens vivia ainda alguma calma do início da situaçāo. Apesar de já sentir de 3 em 3 minutos a pequena Amália. 

Mas a coincidência... A música que tocava. 
Na altura nāo reparei. Confesso. Estava imersa noutro mundo. 
Agora, revendo todos os videos, fiquei de coraçāo cheio.
Na rádio tocava "A Gaivota". A caminho de conhecer a minha Amália, na rádio tocava "A Gaivota" do projecto "Amália Hoje"... 

Uma coincidência simples mas tocante. Nāo podia deixar de partilhar.  
E foi mesmo, meu amor, foi mesmo: 
Amália Hoje. 

E uma gaivota veio mesmo trazer-me o céu de Lisboa. 

Que perfeito coraçāo...






sábado, 15 de março de 2014

O Regresso A Casa




Foram muitos os dias na Maternidade. Mais do que era de esperar. Vi māes chegarem. Vi māes partirem. E nós fomos ficando. Nada de grave. Mas para nāo ser grave tivemos de ficar. Ir ficando. Um dia pelo resultado de umas análises. Noutro por um tratamento. Noutro por outros exames. E lá fomos ficando. A tristeza de se ficar, ir ficando, acentua ao longo dos dias. O querer a nossa casa. O querer a privacidade. O regresso torna-se um desejo longínquo. Vamos relativizando. Adaptando. Aceitando pela saúde, pela segurança. Aprende-se a olhar à volta e ver melhor. Aceitar a nossa grande sorte por nāo ser nada de grave. Agradecer por nāo sermos a bonita mulher da cama 5 que teve um parto prematuro e vive com a força e o desespero de um filho recém-nascido nos cuidados intensivos. 
Ela ali. Rodeada de māes. Māes com os seus bebés recém-nascidos. Māes que podem pegar nos seus filhos ao colo. Māes que sentem o cheiro do seu bebé e lhes acalmam o choro. Esta māe nāo. Esta força de māe sorri em encontros no corredor porque o seu bebé sobrevive. Deita-se e acorda sozinha à espera  de melhores notícias. E o corpo, esse dá-lhe os mesmos sinais de todas as outras que ali estāo. Esta māe, apesar da história, sorri com frequência, mais que a cama 3, 7 ou 8. Sorria na certeza de um futuro melhor. Esta māe cala a dor das outras sem falar. Com sorrisos, calma e esperança.

Mas nós ao fim de cinco dias de maternidade... Enfermeiros e médicos exemplares... Cuidados extremos... Comigo e com todas as mulheres em todos os quartos, em todas as camas... Nós deixamos para trás a vida brilhante de um lugar chamado Maternidade Alfredo de Costa. Um lugar que muitos tentam fechar e sobre o qual dizem ou escrevem barbaridades. Na realidade, no real, na verdade dos dias, do ponto de vista do utente: um lugar mágico. Com uma qualidade de serviço surpreendente. 

Corredores longos cheios de dedicaçāo e trabalho árduo. De dia. De noite. Naquele lugar continua a vida de centenas de pessoas. Seja māes, pais, bebés, enfermeiros ou médicos. Por cada māe passam dezenas de profissionais de topo. Transmitindo segurança, conhecimento e tranquilidade. 
É difícil? É. Nāo minto. Foi. Porque demasiados dias longe de casa é muito difícil em momentos de fragilidade. Foi seguro? Foi. Mesmo quando 48 horas depois tive as chamadas "dores tortas" e achei que ia morrer. Sim achei. 

Achei.
A dor das contracções é uma dor profunda mas nāo assusta. Sabemos o que está a acontecer. Sabemos que a natureza faz o seu trabalho. 
48 horas depois... Nāo se espera dores maiores que as contracções do parto. 
Nāo esperava. Desconhecia. Chamam-se "dores tortas". Achei que ia morrer. Nāo tinha ouvido falar e parece que nāo é assim tāo comum.  Foram um segundo parto. Um parto de útero vazio, de útero apressado a voltar ao lugar num fôlego só. Um útero a pretender fazer em horas o trabalho que deve  ser feito em dias. Essas sim, foram dores horríveis. 
Pelo inesperado, pelo desconhecimento, pelo medo, pelo choro da Amália como reacçāo ao meu. As lágrimas caíam-me de dor, de medo, de ouvir a minha filha chorar, gritar. A Amália nāo chora muito, é calma, tranquila, sempre em paz... Naquele momento chorava o seu pequeno corpo inteiro. Gritava. Foram momentos para apagar, esquecer. Passou. Estava tudo bem. Passou.

Cinco dias depois, o regresso a casa. Um regresso merecido. Uma vinda em paz. Despedi-me. Foi o adeus à enfermeira Marlene que me cativou desde o primeiro segundo. O adeus ao enfermeiro Tiago que me trazia sempre as luvas de água quente. A enfermeira Denise e o enfermeiro Fernando Prada que partilharam as dores mais difíceis, no parto e depois... Sendo que foram também os primeiros a ver a pequena Amália... E por fim, a enfermeira Amélia... que em jeito de graça perguntava se eu achava que ia para as Seychelles depois de ver o tamanho da minha mala de maternidade. E dizia:
- Amália, Amália é lindo... E há tāo poucas. Ana, sou bruta por natureza, nunca digo isto... mas tem aqui uma lindíssima Amália. 
Obrigada enfermeira Amélia, obrigada Maternidade Alfredo Da Costa por terem tratado da minha Amália... De mim, de nós. 
Obrigada a todos os profissionais que nos acompanharam, seguiram e cuidaram.

Foi o adeus e o desejado regresso a casa.
Voltar. 
Entrar. A nossa casa. O cheiro perfumava e o chāo brilhava. Nada fora do lugar. Tinha saído a correr. Nāo tinha deixado nada tāo certinho. Ao avançar dos passos a certeza de que nāo tinha deixado a casa assim. Tudo no seu devido lugar. 
De Amália ao colo segui para os quartos. 
E Chorei.
Chorei. A felicidade de estar em casa. Mais que tudo, chorei com o que nos esperava:


Balões pelo chāo em festa. Uma casa alegre com cheiro a flores nas almofadas e mensagens de boas vindas em todo o lado espalhadas. 

Foi o melhor voltar a casa. 
Obrigada Pedro. Obrigada por tudo o que és. Neste e em todos os outros dias.
Foi o nosso regresso a casa.
Saímos dois. Voltámos três.

Foi eternamente o melhor regresso a casa.   


quinta-feira, 13 de março de 2014

O Parto: A Pequena Grande Hora


Dia 07.
Mês Março.
Ano 2014.

Hora: 2:15 - Sentada no sofá sozinha. No quarto, o pai dormia. Eu rasgava papeis e mais papeis. Um a um. Para deitar no lixo o que ficava do registo de outros dias, contas antigas, papeis e mais papeis. Em casa éramos dois, na esperança de sermos de facto brevemente três. Nāo se acredita. Duvida-se. À medida que o tempo passa contam-se dias, para além de pontapés na barriga para garantir a vida dentro de nós. No dia anterior, dia 06, chorava porque nāo senti mexer durante muitas horas. A afliçāo é grande, garanto. Voltei a descansar quando a enfermeira Célia me fez ouvir o coraçāo da Amália dentro de mim. Disse-me: ela tem menos espaço, mexe menos. Calma. 

Sentada na sala, dia 07, 2h15 da manhā. Numa vida diferente. Numa outra vida. Senti uma impressāo, uma dor leve. que ficou, foi ficando. Parecia algo que me apertava ao fundo do útero. Uma leve impressāo. Levanto-me. O wc ao fundo do corredor deixou de ter uns metros para ter kms. Ainda assim fui sem pressa. Era uma leve impressāo. A meio dessa estrada longa pensei: nāo aguento chegar à casa de banho. As águas, as famosas águas. Duvidei. Nāo tinha dor. Uma impressāo apenas. Tive a certeza quando nāo conseguia parar. Dava ordem ao corpo: pára. Nada. Água no chāo. A porta de um dos quartos mesmo ali. Abri-a: 
- Pedro, acho que é agora. 
O pai dormia. Eu, calmamente a rir 
- Pedro,  Pedro. Pedro. Acho que é agora. 
Como mola saltou da cama. 
- O que sentes?
- Água. Uma pressāo e água. Temos de contar o tempo. Tens horas? Minutos?
- Isso ainda pode demorar muito tempo.

Hora: 2h30 - A dor leve aparecia de 5 em 5 minutos. O Pedro incrédulo. 
- Já? Nāo pode ser.  Isso é o tempo que recomendaram para sair e ir para a Maternidade.
- Pedro, é agora. Mas quero tomar banho. Lavar o cabelo e descontrair o corpo. Endireitar-me.
- Estás a gozar???? 
Nāo estava. Tomei banho. Lavei a cabeça. Na banheira, calma, relaxei. Sentia frio. Tremia. O rolhāo. 
- Pedro, estou a ter tudo de uma vez. Acho que nāo temos tempo. 
De 3 em 3 minutos. Dor. Suave, mas dor. Contracçāo, sem dúvidas já. Temos de ir.
Troquei de roupa num raciocínio infantil de que assim ficaria melhor. 5 segundos depois estava tudo igual. Água nāo parava. Tudo o que tem de ser feito depressa é feito no intervalo da dor. Parece esquizofrénico. Durante a dor nāo me mexia, respirava. Entre dores, organizava eficientemente os últimos detalhes para a mais bonita viagem da minha vida: escova de dentes, pasta de dentes, a mala, o Kit da Cytothera para recolha das células estaminais. 
Tudo. Temos tudo. 
O pai diz já à porta de casa:
- Espera. Somos dois. Vamos voltar três. Tenho de filmar isto.
Filmou.

Sorri entre o medo, o amor e a ternura. Vamos. 
Fomos. 

No carro. 4 piscas. Contracções mais fortes. No sinal vermelho, a polícia. 
- Pedro olha a polícia. Cuidado.
Ahahahahahaah Deixei de pensar. 
Foi rápido. À noite a cidade deixa passar. Cheguei. Chegámos. 
Nesse segundo, entrei e senti: é agora. 

Dor maior. Muita dor. Nāo aguento a dor e vomito. De repente. A dor aumentou de 1 para 8, assim num abrir e fechar de olhos. Agarram em mim na Maternidade Alfredo da Costa e nāo me largam mais. 
Ouço o ditado que corre pelos corredores: parto vomitado, parto abençoado. 
Ouço: tem de aguentar precisamos fazer-lhe um exame e aguardar o resultado para saber se podemos dar a anestesia. 

Hora: 3:45
O tempo, o tempo, a dor, o tempo, a espera, a maca, a sala, a māo do Pedro, a dor, a dor enorme, grande, eterna, e o resultado nada. "Tem de esperar. Faça a respiraçāo." As aulas pré-parto aliviaram-me a dor. A respiraçāo. A posiçāo do corpo. 
Ser mulher. Ali ser mulher. Doer pelas entranhas. Tāo intensamente. Tāo fundo. Sem gritos. Apenas sussurros. 
E os resultados?  Nada. Pensava tenho de respirar. Pela Amália. Nāo pode sofrer ela também. A dor a aumentar, sempre a aumentar. E se nāo me podem dar anestesia? Medo. 
Por ela. A dor quase me desmaia. Nāo aguento, vomito. Uma vez, e outra e outra vez. 

Hora: 4:30
O resultado: podemos dar-lhe a anestesia. 5 minutos e assim será.
Assim foi. Foram os 3 minutos mais difíceis. 
Nāo se pode mexer. A contracçāo vem e nāo se pode mexer um milímetro. Tem consciência disto? Sabe as consequências? Sei, sabia. A dor no seu pico. E a voz calma explicava. 4 camadas. A primeira agora. Nāo se mexa. Calma. 
A dor, a dor, a dor. Nāo me mexia. Mas a dor. 
Assim até à quarta camada. Foram 3 minutos como dias, horas e horas.
Agora vai sentir menos. Você aguenta, vai ver, com uma perna atrás das costas. 

Hora: 4:40
Dormia. A dor passou. Dormia. O corpo a trabalhar. Eu dormia. O corpo dilatava sem pedir licença. Eu dormia. De repente acordava com receio de estar a falhar. Nāo. A máquina dava conta da vida dentro de mim. Tudo tranquilo. Dormi muito. Perdi a noçāo do tempo.

No sala de parto, a māo do Pedro sobre a minha cabeça. Em jeito de brincadeira disse: quero ser homem. O Pedro riu. Era mentira, ele sabia que era mentira. Queria ser a tua māe, Amália. Mas o quanto antes. A dor nunca mais voltou. Foi a tranquilidade e a paz que tomou conta da sala. A equipa conversava comigo, explicava calmamente. Foi acontecendo. Tāo rápido. Tāo tranquilo. Tāo perfeito. 

Eram 7:58 quando te vi Amália. No meu peito caída a olhar para mim. Observavas. Nāo é mentira: senti tudo. O parto nāo doeu. As poucas horas de contracções, sim senti. Mas tinham razāo. Parto abençoado. 
Em mim toda a vida do mundo. Nos meus braços a luz, toda a luz. Vinha também da janela o amanhecer próprio da luz da hora. A pequena grande hora. 
Ali amanhecemos. Amanhecemos juntos. 
Eram 7:58 do dia 07 de Março de 2014 quando a vida amanheceu para mim. 

Nasci contigo. A vida começa aqui.
Bem-Vinda Amália. 



  

sexta-feira, 7 de março de 2014

Dia 07 de Março 2014


Dia 07, 37 semanas e 5 dias. 
Um dia para a vida. Um dia de amor eterno. Um dia para sempre.

Amália, meu amor... Foi a noite mais bonita da minha vida. Das nossas vidas. 
Apresento-te o mundo...
Obrigada por me apresentares o mundo a mim também. Esperei 35 anos. Por ti, por este amor, por este mundo.

Obrigada meu amor...
Obrigada meus amores... 

quinta-feira, 6 de março de 2014

Seguros, Partos e Privados





Indignaçāo take 2:

Conseguir informaçāo concreta sobre valores de partos é um mistério. 
Tentar parece ser uma batalha perdida. Depois de telefonemas para trás e para a frente parece que a resposta fica em águas de bacalhau na base do "depende". 
Vamos lá ver se nos entendemos... Que depende todos sabemos... Naturalmente.
Aquilo que nāo pode é depender da chuva e do sol.  Depende, muito bem, de quê? De muitas coisas. 
Também todos sabemos. Depende do método, do material usado, da medicaçāo, depende de centenas de coisas. Sim, é justo. Mas se nāo fosse muito incómodo eu gostava de ter acesso a informaçāo detalhada que me tem sido vedada em várias frentes. Sem eu entender porquê. 
Dos privados dizem que isso é com o seguro. O seguro diz que é com os próprios hospitais. 
Alguém está claramente equivocado.  Os telefonemas nāo esclarecem coisas básicas a uma futura māe parecendo charadas e brincadeiras de carnaval. Cada um diz sua coisa e nada de concreto. Nenhuma informaçāo clara ou publicada nalgum lugar para consulta. 
À pergunta: Quanto custa um parto? A resposta é: Depende. 
Sim, verdade. Depende. Naturalmente que depende. Tal como tudo na vida. 
Mas quero ter acesso a valores reais, concretos dentro do depende.  

A incerteza aumenta.

Claro que existem variantes em cada parto específico mas todas essas variantes têm de estar contempladas numa tabela. Certo? Onde existe essa tabela para consulta das utentes?  

Alguém tem de fazer as contas, certo? Esse alguém tem acesso a informaçāo. Informaçāo que deve chegar às utentes de forma clara e inequívoca, sem grandes trabalhos ou alaridos. Simples. 
Informaçāo que deveria ser dada facilmente por telefone ou através da consulta directa de uma tabela x no sítio y. 
Nāo acontece. É um facto. É tudo um grande mistério. E o mistério é sério. Melhor ainda quando se ouve do outro lado do telefone: depende do seu seguro. 
"Depende do meu seguro como?" Eu nāo estou a falar sobre o meu acordo específico, sobre a minha apólice. Estou a falar dos custos base fixos esquecendo apólices ou detalhes pessoais de cada utente. 

Eu nāo perguntei quanto me ia custar no fim a mim... Nāo gosto de matemática mas ainda vai dando para fazer contas simples. Preciso é de dados, dados concretos. E depois lá me safo com cálculos tendo em conta a percentagem que me é devida a mim na minha apólice. Eu quero é saber quais os valores praticados e quero descriminado tim tim por tim tim como se de uma ementa se tratasse. 

Nāo quero estimativas que vāo desde os 1800€ aos 6000€ só porque sim... Esta janela é um pouco grande e incerta demais para o meu gosto.  A janela até pode ser esta mas tenho direito a saber as diferenças entre os 1800€ e esses 6000€ e sem apólices ou acordos nenhuns ao barulho, pois cada uma tem o seu e sabemos fazer as nossas contas. O ponto de partida é que convém ser claro, aberto, tabelado,  detalhado e honesto. 

Indigna-me as indefinições que nos impingem. 

Este artigo parece-me relevante dentro do tema:

  




  





Seguro E Artimanhas



É na maior das indignações que hoje escrevo. 

O assunto é básico: inclusāo de um bebé no seguro da māe.
É com surpresa que aviso quem nāo estiver atento, ou melhor, quem nāo anda armado em Sherlock Holmes... que há seguros de saúde que inventam regras que lhes dāo imenso jeito sem qualquer justificaçāo plausível. A regra com que me acabei de confrontar é hilariante. Hilariante para a seguradora pois para mim tem zero graça. Segundo parece existem seguradoras (nem todas felizmente) que exigem que o pedido de inclusāo do bebé no seguro da māe seja feito até ao sexto mês de gestaçāo. 

Caso contrário a resposta que ouvem quando solicitam a inclusāo do bebé no vosso seguro é a seguinte:
- Ah pois, nāo sabia? Agora como a bebé está quase a nascer nos primeiros 60 dias de vida nāo está coberta pelo nosso seguro. Sabe Porquê? É que depois do sexto mês de gestaçāo temos uma regra: os bebés ficam submetidos a um período de carência de 60 dias após o nascimento. 

- Como assim? Porquê? Para quê? Com base em quê? Precisam de 60 dias para quê?- pergunto eu.

- Pois é assim. Mas pode mostrar o seu descontentamento nesse email que vai escrever agora mesmo a pedir a inclusāo. Eu já tomei nota do seu descontentamento e da sua ideia para melhorar o nosso serviço. 

A minha ideia é básica e simples: pois a partir do momento em que o seguro tem a informaçāo de que uma utente está grávida, devia ter mais do que a obrigaçāo de informar a mesma por escrito dos seus direitos e obrigações e dos devidos prazos. Nāo somos nós certamente que devemos supor, imaginar ou mesmo procurar regras tontas. Até porque a maioria da papelada entregue às utentes no ano em que se faz o seguro (no meu caso 10 anos antes) a informaçāo relevante é em relaçāo ao parto e às despesas relacionas. Acho inadmissível ser legal uma seguradora poder exigir que uma māe tenha de tratar do seguro de um filho até 3 meses antes de ele nascer. 

Pergunto: Porquê? Para quê? Com base em quê? Quem disse? Quem exige? Quem permite que isto assim seja?

Apenas tenho uma resposta: Dá imenso jeito pouparem dinheiro com milhares de māes a quem dizem isto na altura óbvia em que as mesmas tratam do assunto - precisamente depois dos ditos 6 meses de gravidez. 
Os primeiros 60 dias de vida de um bebé sāo dias com consultas mais que regulares e tantas vezes podem implicar tratamentos e exames fundamentais que deviam ser e sāo direito nosso. 

Quando uma mulher se inscreve num seguro de saúde e existem os períodos de carência para a comparticipaçāo das despesas da gravidez, tudo isso faz sentido e é mais que aceitável. É justo. Evita que mulheres façam seguros de saúde apenas para engravidar e que assim usufruam de direitos que levariam as seguradoras à falência. Seria insustentável. Naturalmente. 
Mas neste caso, com um bebé precisam de 60 dias de carência para quê, com base em quê? 
Por favor se alguém tiver uma luz que me ilumine o caminho em direcçāo a uma resposta aceitável pois eu nāo encontro nenhuma. 
E que ninguém diga que sāo as regras deles porque pois se assim é: o mínimo seria informar a māe dessas regras estapafúrdias em tempo útil e depois mais legitimamente ficarem à espera, à caça das falhas dos pais. Aí já diriam com mais propriedade: "- pois deve ter recebido na sua morada logo no início da gravidez um panfleto informativo com os seus direitos e deveres. Agora sujeita-se às nossas regras que, como já devia saber: Sāo estas."

Mas nāo, nem isto. 

Enfim...

Amália, meu amor, nāo te preocupes... O seguro do pai nāo tem esta regra tola e estarás coberta desde o segundo em que, logo a seguir a nascer, te registarmos. Assim, felizmente, este problema fica sem efeito para nós mas pode muito bem ser um problema para muitos pais que nāo saibam desta artimanha.

Que este texto evite nem que seja apenas um caso. Já valeria a pena.    


terça-feira, 4 de março de 2014

A Chupeta Alegre




A primeira chupeta esterilizada sorriu para nós. 
60 segundos no micro-ondas, água no fundo da caixa... E puf... Um sorriso.
Dois segundos depois... Abro a caixinha, deito a água a ferver fora. Pego na chupeta... Sacudo para tirar a água em excesso... Tufas: no chão. 
Gargalhadas. E lá vai tudo de novo... Água... Chupeta... 60 segundos... Tututu... Acabou... Mão na caixa... Tufas: queimei-me! 
Hmmmm... Era só uma chupeta. Era mesmo só para ver como resultava. 
Valeu o sorriso. Valeu a gargalhada.

E o pai que acaba de voltar do 'dr. Google' diz com sabedoria: 
- Ana, a chupeta parece que não deve ser esterilizada muitas vezes mas sim antes da primeira vez e ocasionalmente durante os primeiros meses. 
Pronto, ficamos assim. A rir.
Só com uma chupeta e já somos assim, isto promete. :) 

domingo, 2 de março de 2014

Antes De Tu Chegares

© Ana Rocha De Sousa

Pode parecer estranho... Mas foram 3 anos.
Três anos fora do país. Fora deste meu lugar. Num outro incrível e ambicioso sonhar.
Desde que voltei, no entanto, continua a existir algo para limpar, arrumar, ajeitar, guardar e voltar a limpar, e limpar e nāo sei se já tinha dito: limpar, organizar, escolher, e limpar, limpar, limpar, limpar.
A que me refiro? Refiro-me a mais caixotes e caixas que só agora desaparecem ou encontram o seu novo lugar. 

Nāo daqui de casa. 
Mas sim... Desta "minha" casa: de mim.
Ainda. 
Porquê? Porque na realidade foram muitas as coisas empacotadas que se dispersaram por vários lugares. Aqui e ali, em todo o lado. Um cansaço esgotante em mim. Quase quase no fim mas parece ser interminável. Muitas coisas importantes, muitas coisas para dar, muitas para vender, muitas sem sequer saber o que fazer. 
Na realidade, tudo vindo de uma antiga casa cá, uma casa em Londres e um atelier em Lisboa. 3 mudanças numa. Na realidade 4. Ao todo 4 lugares.
Sem nada a ver com a nossa casa nova para te receber, Amália. Nada. Mas sim, as inúmeras caixas de luz do meu trabalho de artes plásticas. Os desenhos, os quadros, as experiências, os trabalhos todos de belas artes... Tudo isso em conjunto ainda com candeeiros ou abat-jours que sāo para vender porque estāo quase novos, impecáveis e lindos vindos de Londres... Isso ou fotografias, ou mais casacos... Mas nāo tenho mais lugar em mim para tudo isto. Ou mesmo para todas aquelas camisolas, malas, sapatos que têm um melhor destino que este... Melhor que este aqui... Este já sem lugar em mim...

Ontem sem tempo. Hoje sem tempo. Eram 07h30 quando hoje o dia começou. E nāo acabou. Nem vai acabar. Nāo acaba. 
E hoje que começa a semana 37. 
37 semanas. 

Antes de tu chegares, meu amor, nāo quero ter nada pendente. Quero tudo tratado. Tudo no seu lugar, o que tiver lugar. Sem lugar fica o mundo suspenso de caixotes de caixeiro viajante. Sem lugar fica o que nāo serve, o que atrapalha. Sem lugar fica tudo o que tenta ganhar espaço no teu caminho. 
Nāo há lugar para o que se tentar pôr no teu caminho. 

Quando chegares a vida começa. Sem passado. Sem caixas. Sem gavetas por arrumar. 
Quando chegares o meu mundo que estremeça. Sem tempo. Sem limites. Sem pesos para carregar.

Espera por favor, só mais um bocadinho porque estou mesmo quase a acabar. 

Já sāo 37. Eu sei. Estamos mesmo quase a acabar. 
Mentira. 
Mentira.
Estamos mesmo quase a começar.